Espinosa e a filosofia do tempo: o que a duração revela sobre a linguagem
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A forma como falamos sobre o tempo esconde uma complexidade que raramente é percebida no dia a dia, segundo artigo publicado pelos professores Marcelo Módolo, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), e Henrique Braga, doutor pela mesma faculdade. No texto, os autores questionam a naturalidade com que se trata o tempo como uma entidade concreta — algo que passa, corre ou voa — e propõem uma reflexão filosófica e linguística sobre o que, de fato, ocorre quando essa ideia é expressa pela fala.
O artigo parte de uma constatação simples: no cotidiano, o tempo costuma ser tratado como algo bem comportado, que pode ser marcado no relógio, dividido em uma agenda, sentido quando falta ou celebrado quando sobra. Essa forma de falar, no entanto, começa a apresentar falhas quando observada com mais atenção, levantando perguntas sobre o que realmente passa quando se diz que o tempo passa e por que existe a necessidade de tratá-lo como uma coisa.
Uma hipótese entre filosofia e linguística
Para aprofundar essa reflexão, os autores apresentam uma hipótese central do artigo: o conceito filosófico de "duração" pode ajudar a explicar de que maneira a língua representa temporalmente os acontecimentos. Essa representação, segundo o texto, envolve diferentes recursos linguísticos, entre eles o aspecto e a acionalidade — noções que serão detalhadas ao longo da argumentação.
É nesse ponto que entra a figura de Baruch de Espinosa, apontado no artigo como um dos grandes filósofos do século XVII. O texto recupera brevemente sua biografia: filho de judeus sefarditas de origem portuguesa, Espinosa pertencia a uma família que havia deixado a Península Ibérica para escapar de perseguições religiosas, estabelecendo-se em Amsterdã, então um dos centros mais dinâmicos da Europa em termos comerciais e intelectuais.
Segundo o artigo, em meio a uma Holanda marcada por comércio intenso e circulação de ideias, Espinosa levou uma vida discreta, afastada dos grandes salões da época. Ele se sustentava como polidor de lentes enquanto escrevia sua obra mais conhecida, a Ética, caracterizada por um rigor de exposição quase geométrico. É justamente nessa obra, segundo os autores, que ocorre algo peculiar: o tempo, tão presente na linguagem cotidiana, deixa de ocupar o centro da explicação filosófica.
O que é a duração para Espinosa
De acordo com o artigo, na filosofia espinosana não há espaço para um tempo que exista de forma independente, correndo "lá fora" como um rio à parte das coisas. O que existe, segundo essa perspectiva, é a duração: o modo como se percebe que algo continua, se transforma e insiste em existir.
Os autores explicam que essa diferença, embora pareça pequena à primeira vista — quase um detalhe de formulação —, altera profundamente a maneira de compreender a realidade. A duração não seria um objeto passível de ser apontado ou medido diretamente, mas sim a experiência da continuidade da existência, o acompanhamento de algo que persiste e se transforma ao longo da vivência.
Segundo o artigo, o que costuma ser chamado de "tempo" surgiria justamente quando se tenta dar contorno a essa experiência de duração: ao comparar momentos, medir intervalos e organizar aquilo que, na vivência concreta, não vem dividido em partes nítidas. Assim, em vez de um tempo que existiria por si mesmo, correndo ao lado das coisas, haveria apenas uma maneira humana de perceber a continuidade dos acontecimentos. O tempo deixaria de ser uma peça da engrenagem do mundo para se tornar um recurso usado para não se perder no fluxo daquilo que acontece.
Da filosofia à língua: aspecto e acionalidade
O artigo indica que, embora essa formulação filosófica ainda soe abstrata, a língua oferece um caminho mais concreto para compreendê-la, e é justamente aí que a intuição de Espinosa passa a iluminar diretamente um problema linguístico. Os autores citam a definição original, em latim, presente na Ética: duratio est indefinita existendi continuatio, que pode ser traduzida como "a duração é a continuação indefinida da existência" — ou seja, a continuidade de existir que não vem recortada em partes previamente definidas.
Segundo o texto, é justamente esse caráter aberto e sem recorte que a linguagem precisa organizar. Aquilo que o filósofo chama de duração reapareceria, no plano da língua, nas diferentes maneiras de representar os acontecimentos. Essa representação mobilizaria diferentes recursos: um deles é o chamado aspecto; outro diz respeito às propriedades dos próprios acontecimentos, aquilo que a linguística denomina acionalidade.
Os autores explicam a distinção entre os dois conceitos: enquanto o aspecto diz respeito ao modo como o falante apresenta um acontecimento, a acionalidade descreve propriedades do próprio tipo de evento — por exemplo, se ele envolve um estado, uma atividade, uma realização ou uma mudança pontual. Segundo o artigo, quando alguém fala, não está apenas dizendo quando algo ocorre; está também escolhendo como o acontecimento é apresentado — se em andamento, se já concluído, ou se em seu processo de desenvolvimento.
Espinosa como chave de leitura da linguagem
Nesse ponto, segundo o artigo, a filosofia de Espinosa deixa de funcionar apenas como pano de fundo teórico e passa a servir como chave de leitura para compreender o fenômeno linguístico. Ela ajudaria a entender por que a língua não se limita a localizar acontecimentos no tempo, mas também se ocupa, com bastante precisão, de representá-los em sua complexidade interna.
Os autores concluem que aquilo que Espinosa chama de duração — essa continuidade sem recorte prévio da existência — exige, no plano da linguagem, algum tipo de organização. É justamente nesse ponto que entrariam as possibilidades de representação linguística dos acontecimentos: não como uma tradução direta da duração filosófica, mas como um modo de organizar sua representação dentro da linguagem humana.
O artigo encerra com uma síntese da proposta: toda língua precisa dar forma aos acontecimentos vividos, situando-os no tempo e mostrando como eles se apresentam a quem fala e a quem ouve. A reflexão une, assim, um conceito filosófico do século XVII a categorias centrais da linguística contemporânea, propondo um diálogo entre as duas áreas para compreender melhor a relação entre linguagem, tempo e experiência.
Por: Redação Tá Sabendo MT (Redação Tá Sabendo MT, com informações de Jornal da USP)