Derrota no esporte: o que ela revela sobre nós, segundo pesquisa da USP
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Uma reflexão publicada no Jornal da USP pela professora sênior da Faculdade de Educação da USP, Katia Rubio, propõe uma análise aprofundada sobre o significado da derrota no esporte e em outras esferas competitivas da vida contemporânea, a partir de anos de pesquisa dedicados ao tema e de mais de 1.500 histórias colhidas junto a atletas olímpicos brasileiros.
O peso da derrota na sociedade contemporânea
Segundo a autora, a derrota funciona como uma sombra que acompanha tanto indivíduos quanto instituições em uma sociedade viciada em produtividade e adrenalina. Essa sombra se manifesta sempre que alguém compete por algo, seja um campeonato esportivo, um projeto profissional, uma bolsa de estudos, um concurso público ou um edital de pesquisa.
A pesquisadora explica que foi necessário mergulhar nesse universo para compreender que a generalização em torno da derrota esconde especificidades importantes, das quais é possível extrair lições valiosas, tanto no contexto esportivo quanto em qualquer outra atividade marcada pela competição.
De acordo com o texto, os momentos que sucedem uma derrota costumam vir acompanhados de vergonha, dor e um forte impulso de abandonar a atividade que levou àquele resultado. Isso ocorre porque o julgamento social sobre quem perde é, na maioria das vezes, implacável, sobretudo quando havia uma expectativa de vitória praticamente garantida sobre o competidor.
Competição: nem boa, nem ruim
A professora destaca um ponto que considera fundamental para o debate: a competição é a própria razão de existir do esporte. Ela não carrega, por si só, um caráter positivo ou negativo — sem competição, o jogo deixa de ser esporte e passa a ser classificado apenas como atividade física, lazer ou brincadeira.
O texto pondera, no entanto, que fora do contexto esportivo a competição assume outros contornos, dando margem a críticas legítimas relacionadas à meritocracia e à exclusão social.
Três tipos de derrota identificados pela pesquisa
A partir da escuta de mais de 1.500 relatos de atletas olímpicos brasileiros, a pesquisadora identificou três naturezas distintas de derrota no esporte.
A primeira é a chamada derrota para si mesmo, que ocorre quando um atleta ou uma equipe não apresenta o seu melhor desempenho, subestima o adversário ou até mesmo abre mão do resultado de forma proposital, visando alguma vantagem estratégica.
A segunda categoria é a derrota para o outro, situação em que o adversário se mostra reconhecidamente superior — seja do ponto de vista técnico, tático, físico ou psicológico. Nesses casos, segundo a autora, a derrota pode ser ressignificada como uma oportunidade de aprendizado.
A terceira é a derrota para o imponderável, quando fatores fora do controle de quem compete interferem de maneira injusta no resultado. Como exemplos, o texto cita o erro de arbitragem — cada vez mais questionável diante dos recursos tecnológicos que reduzem o peso da decisão humana —, a deslealdade do oponente, incluindo casos de doping, o chamado "tapetão", quando decisões institucionais alteram um resultado que seria justo em campo, e ainda eventos totalmente imprevisíveis, como condições climáticas adversas ou circunstâncias de estar no lugar errado, na hora errada. Esse último tipo, segundo a pesquisadora, é o mais difícil de ser elaborado emocionalmente, justamente pela ausência de controle sobre o que aconteceu.
O caso de Cabo Verde na Copa do Mundo
O artigo relaciona essas reflexões teóricas às competições da atual edição da Copa do Mundo, disputada na América do Norte, com destaque especial para a participação da seleção de Cabo Verde, eliminada pela Argentina, atual campeã mundial.
Segundo a professora, especialistas consideraram essa partida o melhor jogo da competição até aquele momento. O confronto representou, na prática, uma disputa desigual entre a força de uma seleção tradicional e a aparente desvantagem de uma equipe estreante em Copas do Mundo, representante de um país de passado colonial, marcado pela pobreza e sem tradição no futebol profissional.
De acordo com a autora, essa condição de desigualdade parece ter mobilizado o sentimento coletivo, ao redor do mundo, que costuma aflorar diante de embates — reais ou ficcionais — que despertam uma espécie de revanche simbólica, ligada à experiência de quem já viveu alguma derrota considerada injusta.
Paralelos com a cultura e a história
Para ilustrar esse fenômeno, o texto recorre a diversas referências da cultura popular e da história. Cita Frodo e Sam, os dois pequenos e indefesos hobbits que atravessam um continente em guerra para enfrentar e destruir o império de Sauron, o Lorde das Trevas, na saga O Senhor dos Anéis.
Também menciona o confronto entre Luke Skywalker e a Estrela da Morte, na primeira trilogia de Guerra nas Estrelas, quando um único caça X-Wing, pilotado por um jovem fazendeiro, destrói uma estação espacial do tamanho de um planeta.
Outro exemplo citado é o de Neo enfrentando as máquinas em Matrix, representando um único homem desconectado contra todo o sistema senciente e infinito de uma inteligência artificial. O texto lembra ainda a passagem bíblica em que Davi, um jovem pastor armado apenas com uma funda e cinco pedras, derrota Golias, um guerreiro gigante e blindado de quase três metros de altura.
A professora observa que dificilmente alguém torceria por Darth Vader, Sauron ou Golias, ainda que fosse apenas para provocar a reação de um interlocutor em uma conversa. Ela também recorre a um episódio histórico, a Batalha das Termópilas, ocorrida na Grécia em 480 a.C., quando apenas 300 soldados espartanos, somados a alguns aliados, conseguiram bloquear temporariamente o avanço de um imenso exército inimigo, reforçando o padrão simbólico de torcida pelo lado aparentemente mais fraco em confrontos históricos e ficcionais.
Por: Redação Tá Sabendo MT (Redação Tá Sabendo MT, com informações de Jornal da USP)