Violência contra mulheres cresce em dias de jogos de futebol, apontam estudos
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Enquanto milhões de pessoas se dedicam a acompanhar partidas de futebol, uma pesquisadora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP) chama atenção para outro fenômeno que se repete em dias de jogo: o crescimento dos casos de violência contra as mulheres. Em artigo publicado no Jornal da USP, a pós-doutoranda Kátia Bizan reúne dados nacionais e internacionais que associam grandes eventos esportivos a picos de agressões domésticas.
Dados do Brasil e do exterior
Segundo um estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública citado no artigo, os registros de Boletins de Ocorrência por ameaça contra mulheres aumentam 23,7% em dias de jogos de futebol no Brasil, enquanto os casos de lesão corporal sobem 20,8% no mesmo período. Os números indicam que o fenômeno não se restringe a ocorrências isoladas, mas segue um padrão identificável em levantamentos de segurança pública.
O comportamento também foi observado fora do país. Na Inglaterra, pesquisas apontam aumento de 26% nos episódios de violência doméstica em dias de jogos da seleção nacional, percentual que sobe para 38% quando a equipe perde a partida. Nos Estados Unidos, estudos sobre o futebol americano identificaram crescimento de ocorrências de violência doméstica em dias de jogo, principalmente após derrotas do time da casa. Durante o Super Bowl, uma das maiores celebrações esportivas do país, pesquisas registraram aumento superior a 40% nos casos de violência doméstica em comparação com domingos comuns.
O futebol como catalisador, não como causa
Diante desses números, a autora do artigo levanta uma pergunta central: o futebol provoca a violência? Para ela, a resposta exige contextualização histórica e social.
"A violência contra as mulheres não nasce quando o juiz apita o início da partida. Ela é construída muito antes, em uma cultura que ainda naturaliza relações desiguais de poder entre homens e mulheres", escreve Kátia Bizan.
De acordo com a pesquisadora, grandes eventos esportivos criam um contexto que pode potencializar comportamentos já existentes. Emoções intensas, consumo excessivo de álcool, frustração diante da derrota e modelos de masculinidade baseados em competição, controle e demonstração de força funcionam como catalisadores de uma violência que já estava presente antes do apito inicial.
"Os episódios de violência registrados nesses períodos não podem ser tratados como acontecimentos isolados", afirma a autora.
Denúncias no futebol profissional
O artigo também menciona que a discussão ganha visibilidade quando denúncias de violência sexual alcançam o próprio universo do futebol profissional. Nos últimos anos, atletas de diferentes seleções nacionais passaram a responder a investigações ou processos relacionados a crimes sexuais.
A autora ressalta que o desfecho jurídico de cada caso deve ser sempre respeitado e acompanhado conforme o devido processo legal. Ainda assim, ela pondera que a recorrência dessas denúncias mostra que fama, sucesso e reconhecimento público não impedem que a violência contra as mulheres atravesse também um dos maiores espetáculos esportivos do planeta.
Narrativas sobre masculinidade
Para Kátia Bizan, o problema não está restrito a indivíduos isolados, mas em narrativas culturais construídas ao longo de gerações sobre masculinidade, poder, conquista e controle.
"Desde muito cedo, meninos aprendem que precisam ser fortes, competitivos, dominantes. Aprendem que demonstrar vulnerabilidade é sinal de fraqueza, enquanto controlar, vencer e impor-se são comportamentos frequentemente valorizados", diz a pesquisadora.
A autora faz uma ressalva: não se trata de afirmar que todo homem educado sob essas referências será violento. Mas, segundo ela, é impossível ignorar que essas narrativas ajudam a construir um ambiente em que agressividade, posse e controle encontram espaço para serem naturalizados.
Origem cotidiana da violência
O artigo defende que a violência de gênero não nasce no estádio, mas em pequenas permissões cotidianas: nas piadas que transformam o corpo feminino em objeto, na crença de que homens têm o direito de controlar as escolhas das mulheres e na banalização de comportamentos que, aos poucos, alimentam relações abusivas.
"Quando olhamos apenas para os casos extremos, perdemos de vista tudo aquilo que os torna possíveis", observa a pesquisadora.
Convite à reflexão durante a Copa do Mundo
Kátia Bizan defende que períodos como o de uma Copa do Mundo sejam também momentos de ampliar o olhar sobre esse fenômeno. Para ela, celebrar o esporte é importante, já que o futebol faz parte da identidade cultural de diversos povos e mobiliza emoções legítimas.
"Não podemos permitir que a festa esconda aquilo que continua acontecendo do lado de fora das quatro linhas", conclui a autora.
O artigo encerra destacando que, enquanto estatísticas de gols, classificações e artilheiros ocupam o noticiário esportivo, outra estatística segue crescendo silenciosamente: ela não aparece no placar, não rende troféus e não ocupa os programas esportivos, mas revela aspectos importantes sobre a sociedade. Para a pesquisadora, o futebol termina quando o árbitro encerra a partida — a violência contra as mulheres, no entanto, continua.
Por: Redação Tá Sabendo MT (Redação Tá Sabendo MT, com informações de Jornal da USP)