Esportes

Sanções da Fifa e da Uefa expõem embate entre tradição e discriminação nas arquibancadas do futebol

Sanções da Fifa e da Uefa expõem embate entre tradição e discriminação nas arquibancadas do futebol

Wikimedia Commons / FIFA

Publicado em
Compartilhar:

O Tribunal Arbitral do Esporte confirmou parte das sanções aplicadas pela Fifa à Federação Mexicana de Futebol em razão da repetição de um cântico homofóbico entoado por torcedores da seleção mexicana durante a preparação para a Copa do Mundo, em episódio que expõe uma mudança profunda na forma como o futebol internacional passa a tratar manifestações discriminatórias nas arquibancadas.

A decisão do Tribunal Arbitral do Esporte não se limita a um caso disciplinar isolado. Segundo análise do professor Marco Antonio Bettine de Almeida, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), ela evidencia que práticas historicamente justificadas como parte da cultura das torcidas passaram a ser avaliadas sob a ótica dos direitos humanos, da não discriminação e do reconhecimento público de grupos historicamente vulnerabilizados.

O caso mexicano e o histórico de sanções

Reportagem publicada pelo jornalista Matt Slater no The Athletic, veículo parceiro do The New York Times, mostra que a questão não se restringe a um episódio pontual de indisciplina nas arquibancadas. De acordo com a reportagem, o cântico homofóbico entoado por torcedores mexicanos marca negativamente os jogos da seleção conhecida como "El Tri" há mais de uma década, o que levou a Fifa a manter um histórico recorrente de sanções contra a Federação Mexicana de Futebol.

O caso, conforme destaca o professor da USP, não deve ser interpretado apenas como um problema localizado do futebol mexicano, mas como expressão de uma transformação mais ampla no modo como o futebol internacional passa a lidar com práticas discriminatórias em suas competições.

Europa também registra casos de discriminação nas arquibancadas

O episódio mexicano ganhou visibilidade às vésperas da Copa do Mundo, mas está longe de ser uma exceção cultural restrita ao futebol latino-americano. Cânticos racistas, xenofóbicos e etnonacionalistas continuam a aparecer em estádios europeus, principalmente em partidas de seleções marcadas por rivalidades históricas, movimentos migratórios, disputas territoriais e conflitos nacionais.

A Europa, com frequência apresentada como referência normativa do futebol mundial, também acumula exemplos de como a arquibancada pode se transformar em espaço de hostilidade contra minorias, estrangeiros e torcidas de países rivais. Nas eliminatórias europeias para a Copa do Mundo de 2026, a Fifa aplicou punição à Sérvia após comportamento discriminatório registrado entre torcedores da seleção.

A agência de notícias Associated Press noticiou ainda que a Romênia foi punida pela Uefa com a realização de uma partida sem a presença de público e o pagamento de multa de 128 mil euros, após cânticos xenofóbicos, manifestações de conteúdo político e episódios de tumulto registrados durante confronto contra a seleção de Kosovo.

O jornal britânico The Guardian já havia noticiado, nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022, insultos de caráter racista dirigidos a jogadores negros da seleção inglesa durante partida contra a Hungria. Os episódios reunidos demonstram que a arquibancada contemporânea se tornou um espaço global de disputa normativa, em que condutas antes relativizadas como rivalidade, provocação ou folclore torcedor passaram a ser tratadas como questão de direitos humanos, reconhecimento social e responsabilidade institucional das federações.

O que está em disputa: o significado da tradição esportiva

Para o professor Marco Antonio Bettine de Almeida, o cerne do debate está no próprio significado da tradição esportiva. Durante décadas, diversos comportamentos foram naturalizados como parte do chamado "folclore das arquibancadas": insultos racistas, manifestações homofóbicas, cânticos ofensivos e diferentes formas de humilhação do adversário eram frequentemente tratados como elementos inseparáveis da rivalidade esportiva.

Esse entendimento, no entanto, vem sendo progressivamente questionado nos últimos anos. A tradição deixa de funcionar como justificativa suficiente quando determinadas práticas produzem exclusão, discriminação ou reforçam desigualdades historicamente construídas contra grupos vulnerabilizados.

Linguagem, poder e reconhecimento social

O artigo destaca que, nas últimas décadas, movimentos sociais, organismos internacionais, decisões judiciais e políticas públicas ampliaram a compreensão sobre diferentes formas de violência simbólica. Nesse processo, a linguagem passou a ser entendida não apenas como meio de comunicação, mas também como espaço de reconhecimento, pertencimento e exercício de poder.

Palavras, gestos e expressões coletivas passaram a ser analisados pelos efeitos concretos que produzem sobre aqueles que historicamente ocuparam posições de vulnerabilidade social, o que ajuda a explicar por que cânticos antes tolerados hoje resultam em sanções esportivas e disciplinares.

A arquibancada como espaço público de manifestação

Segundo o professor, as arquibancadas assumem um significado particular na sociedade contemporânea: constituem um dos maiores espaços públicos de manifestação coletiva existentes no mundo atual. Milhares de pessoas compartilham emoções, símbolos, cantos, rituais e identidades em torno de um espetáculo que ultrapassa em muito os noventa minutos de uma partida.

O estádio, conforme argumenta o artigo, funciona também como espaço de produção cultural. Nesse contexto, a ofensa deixa de ser apenas um recurso para desestabilizar psicologicamente o adversário em campo e passa a desempenhar uma função simbólica mais ampla, associada à afirmação de identidades coletivas e à exclusão de grupos considerados diferentes ou rivais.

Próximos passos para o debate no futebol internacional

As sanções aplicadas ao México, à Sérvia e à Romênia indicam que Fifa e Uefa tendem a intensificar a fiscalização de condutas discriminatórias durante competições internacionais, incluindo a Copa do Mundo. O debate proposto pelo professor da USP sugere que federações nacionais precisarão equilibrar a preservação de tradições torcedoras com a responsabilização por práticas que reforcem discriminação, sob risco de sanções recorrentes, multas e restrições ao público em futuras partidas.

Por: Redação Tá Sabendo MT (Redação Tá Sabendo MT, com informações de Jornal da USP)

Compartilhar: