Professor da USP defende que rituais ressurgem como resposta ao avanço dos algoritmos
Em artigo no Jornal da USP, Paulo Nassar, da ECA, argumenta que a hiperconexão digital impulsiona um movimento inédito de busca por silêncio, desconexão e práticas ritualísticas
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O professor Paulo Nassar, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), defende em artigo publicado no Jornal da USP que a sociedade contemporânea pode estar vivendo o maior processo de ritualização desde a Revolução Industrial. Segundo o docente, o fenômeno ocorre justamente no momento de maior avanço da inteligência artificial, das plataformas digitais e dos algoritmos sobre a vida cotidiana.
Uma hipótese sobre o tempo presente
Nassar reconhece que a ideia soa contraditória à primeira vista. Nunca a humanidade esteve tão conectada, acelerada e monitorada, nem os sistemas de dados participaram de forma tão intensa de decisões relacionadas a consumo, trabalho, estudo, relacionamentos, viagens, saúde e até voto, segundo o professor.
"Talvez estejamos vivendo o maior processo de ritualização da sociedade desde a Revolução Industrial", escreve Paulo Nassar.
Para o professor, é exatamente nesse ambiente hiperconectado que surge um fenômeno silencioso: quanto maior a presença dos algoritmos na vida das pessoas, maior se torna o desejo humano por espaços onde essa lógica não alcança. Ele chama essa percepção de uma das principais etno-observações da atualidade.
Rituais como resistência antropológica
De acordo com o artigo, os rituais deixaram de significar apenas heranças religiosas ou tradições culturais e passaram a funcionar como territórios de resistência antropológica diante da lógica algorítmica.
"O algoritmo deseja nossa atenção contínua. O ritual devolve a atenção para nós mesmos", afirma Nassar.
O professor observa que, enquanto a sociedade industrial separava claramente os tempos de trabalho e de descanso, a sociedade algorítmica dissolveu essa fronteira. Toda pausa, segundo ele, tornou-se potencialmente produtiva; toda viagem pode virar postagem; e todo silêncio corre o risco de ser interrompido por uma notificação.
O valor do silêncio e da desconexão
É nesse cenário, argumenta Nassar, que o silêncio recuperou valor cultural. O que antes era visto como ausência passou a representar liberdade, e estar inacessível se tornou um privilégio. Não responder imediatamente a mensagens, segundo o professor, converteu-se em forma de autonomia pessoal.
"Pela primeira vez na história moderna, desaparecer por algumas horas pode representar um gesto político", diz Nassar.
O artigo recorre a dois pensadores para sustentar a análise. O filósofo Byung-Chul Han é citado por observar que a sociedade contemporânea produz excesso de positividade, de desempenho e de exposição. Já o sociólogo Hartmut Rosa é mencionado por descrever a aceleração permanente como característica central da modernidade tardia, propondo o conceito de ressonância — momentos em que as pessoas voltam a estabelecer vínculos verdadeiros com o mundo, com outras pessoas e com a natureza.
"Talvez os novos rituais sejam precisamente máquinas de produzir ressonância", avalia Nassar, com base nas ideias de Rosa.
Uma geografia da desconexão
Segundo o professor, cresce em praticamente todos os continentes uma geografia da desconexão, formada por práticas e espaços que recusam a lógica da otimização digital. Ele cita como exemplos hotéis que anunciam a ausência de internet como diferencial competitivo, retiros de silêncio com listas de espera e mosteiros que passaram a receber executivos em busca de pausa.
O artigo menciona ainda peregrinações como o Caminho de Santiago, percorrido por jovens ao longo de centenas de quilômetros, e a difusão mundial de práticas japonesas como o shinrin-yoku, o chamado banho de floresta. A cerimônia do chá é citada como exemplo de encontro que pode durar horas sem que ninguém consulte o telefone, assim como a lotação de parques urbanos nos fins de semana por pessoas que buscam simplesmente caminhar.
"Não se trata de turismo. Nem de bem-estar. Muito menos de uma moda", afirma o professor sobre esse conjunto de práticas.
Para Nassar, trata-se, na verdade, da reconstrução de ambientes em que a experiência humana continua pertencendo aos próprios seres humanos. Esses espaços, segundo ele, têm em comum a recusa à lógica da eficiência: o tempo deixa de ser comprimido, a produtividade desaparece como critério, a lentidão deixa de ser defeito para se tornar método, e o silêncio deixa de ser vazio para se tornar linguagem.
A ruptura entre ritual e algoritmo
O artigo aponta essa transformação como a maior ruptura antropológica produzida pela sociedade digital. Durante milhares de anos, segundo Nassar, a humanidade conviveu com os ausentes — os mortos, os ancestrais, as tradições, os lugares de memória, as histórias familiares e as gerações futuras — e os rituais sempre foram construídos justamente para manter essas presenças vivas, como ocorre em uma missa, um funeral, um casamento, uma cerimônia do chá, um ritual comunitário, uma refeição familiar ou uma peregrinação.
Os algoritmos, argumenta o professor, operam segundo lógica inversa, trabalhando exclusivamente com aquilo que produz presença mensurável: cliques, tempo de tela, engajamento, dados e interações. Sua economia, segundo ele, depende do presente permanente, o que explicaria um conflito silencioso entre ritual e algoritmo.
"O ritual não produz dados. Produz significado. O algoritmo organiza comportamentos. O ritual organiza existências", conclui Paulo Nassar.
O artigo, publicado na seção de colunistas do Jornal da USP, integra as reflexões do professor sobre comunicação, cultura e os efeitos da digitalização sobre a experiência humana contemporânea.
Por: Redação Tá Sabendo MT (Redação Tá Sabendo MT, com informações de Jornal da USP)