Cultura

Tese de Caio Prado Júnior para concurso na USP é publicada em livro após 70 anos

Diretrizes para Uma Política Econômica Brasileira, escrita em 1956 para disputa de cátedra na Faculdade de Direito, chega agora pela Boitempo Editorial

Tese de Caio Prado Júnior para concurso na USP é publicada em livro após 70 anos

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O historiador Caio Prado Júnior (1907-1990), então já reconhecido como um dos principais intelectuais comunistas do País, concorreu em 1956 ao cargo de professor da cadeira de Economia Política da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Para participar do concurso, ele apresentou a tese Diretrizes para Uma Política Econômica Brasileira. Sete décadas depois, o texto acaba de ser publicado em livro pela Boitempo Editorial, praticamente inédito até então.

Um concurso disputado e um título cassado

Caio Prado Júnior não obteve o primeiro lugar naquele concurso de 1956: a vaga coube ao jurista José Pinto Antunes. Ainda assim, o historiador foi aprovado no processo seletivo e recebeu o título de professor livre-docente pela USP. Esse título, porém, não duraria para sempre: foi cassado pela ditadura militar em 1968, no contexto da perseguição a intelectuais e professores considerados subversivos pelo regime.

A tese apresentada no concurso teve destino semelhante ao de outros trabalhos acadêmicos da época: publicada originalmente pela gráfica Urupês, em tiragem reduzida, ela não foi reimpressa nas décadas seguintes. Chama atenção o fato de que nem mesmo a Editora Brasiliense — fundada pelo próprio Caio Prado Júnior em parceria com outros intelectuais mais de dez anos antes do concurso — tenha relançado o texto ao longo de todo esse tempo.

Agora, exatos 70 anos após ter sido escrita e apresentada à banca da Faculdade de Direito, a tese Diretrizes para Uma Política Econômica Brasileira chega ao público em formato de livro pela Boitempo Editorial, resgatando um documento até então de acesso restrito a poucos pesquisadores e bibliotecas.

Continuidade com obras clássicas do autor

O material publicado agora dialoga diretamente com títulos que já haviam consagrado Caio Prado Júnior como historiador e pensador da economia brasileira antes mesmo do concurso de 1956. Entre essas obras estão Evolução Política do Brasil, de 1933, Formação do Brasil Contemporâneo, de 1942, e História Econômica do Brasil, de 1945 — todos já publicados quando ele redigiu a tese e considerados clássicos da historiografia nacional.

Um dos eixos centrais da tese é a discussão sobre a relação entre mercado interno e mercado externo na economia brasileira. Segundo a análise de Caio Prado Júnior, o Brasil da época ainda vivia sob um sistema de características coloniais, com sua base econômica assentada na produção primária voltada à exportação.

A proposta de reestruturação econômica

Para o historiador, a superação desse modelo colonial exigia um deslocamento do eixo econômico do País: em vez de depender do mercado externo, o Brasil deveria fortalecer e priorizar o mercado interno. Essa mudança de rumo, argumentava, não aconteceria de forma espontânea — seria necessário que o Estado assumisse um papel ativo, dotando-se da capacidade de fortalecer o capital privado nacional.

O objetivo dessa ação estatal seria criar condições adequadas para que aquilo que Caio Prado Júnior chamava de "forças produtivas" do País pudessem promover as transformações necessárias na estrutura econômica brasileira. Segundo a tese, essas forças produtivas eram compostas por três grupos: a burguesia industrial e comercial, o proletariado e o campesinato.

No caso da burguesia industrial e comercial, o historiador fazia uma ressalva importante: para cumprir esse papel transformador, ela deveria estar livre de compromissos com o imperialismo e com o capital financeiro internacional — uma condição que, na leitura do autor, era determinante para viabilizar o projeto de desenvolvimento nacional que defendia.

"Trata-se de cuidar com a maior atenção do movimento de nossas transações externas, tirando delas o máximo e necessário proveito para que elas representem cada vez com menos destaque o papel de fulcro da economia brasileira que atualmente constituem", escreve Caio Prado Júnior na tese.

Um documento histórico recuperado

A publicação da tese pela Boitempo Editorial, sete décadas após sua elaboração original, devolve ao público um documento que ilustra tanto o pensamento econômico de um dos principais intelectuais brasileiros do século 20 quanto as disputas acadêmicas e políticas vividas na USP em meados da década de 1950. O texto reforça, ainda, a trajetória de perseguição sofrida por Caio Prado Júnior durante a ditadura militar, período em que teve seu título acadêmico cassado pelo regime.

A reportagem foi assinada por Roberto C. G. Castro, com arte de Heloisa Falaschi, e publicada no Jornal da USP em 8 de julho de 2026.

Por: Redação Tá Sabendo MT (Redação Tá Sabendo MT, com informações de Jornal da USP)

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