Show de Mercedes Sosa no Musicanto de Santa Rosa é lembrado como episódio lendário do nativismo gaúcho
Apresentação da cantora argentina reuniu mais de 15 mil pessoas em 1984, durante a 2ª edição do festival, e ficou registrada em fita analógica hoje digitalizada
Wikimedia Commons / Annemarie Heinrich
No dia 12 de outubro de 1984, o campo do Dínamo Futebol Clube, em Santa Rosa, recebeu mais de 15 mil pessoas para assistir à apresentação da cantora argentina Mercedes Sosa, um dos episódios mais lembrados da história do nativismo gaúcho. O show integrava a programação da 2ª edição do festival Musicanto Sul-Americano de Nativismo e ocorreu em um período no qual apresentações em estádios de futebol ainda não eram comuns no país.
Mercedes Sosa, conhecida como La Negra, havia retornado recentemente do exílio e vivia um momento de grande projeção, cantando para multidões tanto em sua terra natal, a Argentina, quanto no Brasil. O espetáculo em Santa Rosa reunia, além da celebração musical, um simbolismo político, num momento em que a Argentina havia encerrado seu regime militar e o Brasil vivia a campanha pelas eleições diretas.
Uma aproximação construída ao longo do tempo
Antes de se apresentar em Santa Rosa, Mercedes Sosa já havia se apresentado em Porto Alegre e mantinha intercâmbio artístico com músicos brasileiros, como Milton Nascimento. Mas foi em 1984 que essa relação com o sul do Brasil se intensificou, especialmente por meio do disco '¿Será posible el sur?', que trazia composições dos gaúchos Kleiton Ramil, autor de 'Vira Viró', e Vitor Ramil, responsável por 'Siembra'.
A cantora argentina também participou do LP 'Kleiton & Kledir En Español' e do disco 'Gaudério', de Raul Ellwanger, reforçando os laços artísticos entre sua obra e a cena musical gaúcha da época.
Diante da expectativa de se apresentar num festival fora de seu país, Mercedes Sosa manifestou entusiasmo em entrevista concedida à RBS TV antes do show.
"Quero ver como são as festas dos gaúchos, ver como se dá esta mescla de música regional com acordeon, falando este português. Realmente, o sonho da unidade latino-americana pode ser que esteja ocorrendo neste lugar", afirmou Mercedes Sosa à RBS TV.
O Musicanto como catalisador cultural
O então prefeito de Santa Rosa, Erni Friderichs, deixou registrado no libreto da 2ª edição do festival a visão de que o Musicanto ia além de uma disputa musical, funcionando como um espaço de integração cultural entre diferentes países e tradições da América do Sul.
"Colocando em contato os mais expressivos segmentos do nativismo rio-grandense, brasileiro e sul-americano, poderão resultar sínteses que, além de permitir avanços globais na arte poética e musical, igualmente permitir a definição de novas trilhas para povos tão iguais como os americanos do Sul nas suas frustrações e nos seus anseios", escreveu Erni Friderichs no libreto do evento.
Na coletiva de imprensa realizada no dia do show, Mercedes Sosa comentou as dificuldades políticas enfrentadas pela América Latina naquele período e também abordou a condição das mulheres na sociedade, criticando a submissão feminina presente na maioria dos lares.
"A mulher tem muita importância. Eu não quero estar contra os homens, porque sofrem bastante neste continente. Mas me incomodam homens machistas", disse Mercedes Sosa durante a coletiva.
Coincidência histórica com a vitória do eu lírico feminino
A passagem de Mercedes Sosa por Santa Rosa coincidiu com um marco simbólico na história do festival: a primeira vitória de uma composição com eu lírico feminino em um festival nativista. A canção vencedora foi 'Canto da mulher prometida', interpretada por Elaine Geissler.
Das 12 canções que disputaram a final daquela edição, quatro foram interpretadas por mulheres. Além da vencedora Elaine Geissler, também se apresentaram no palco Claudia Jungbluth, Maria Rita Stumpf e Glória Oliveira.
Uma gravação inédita guardada por décadas
O show de Mercedes Sosa em Santa Rosa ficou registrado em uma fita de áudio em rolo que permanece inédita até hoje, embora já tenha sido digitalizada. O responsável pela gravação foi o historiador Tau Golin, que cobria o evento para o programa Continente Latino-Americano, da rádio Imembuí, de Santa Maria.
O material sonoro revela o clima de intensa emoção que tomou conta do público na noite do show, com gritos de apoio e pedidos insistentes para que a cantora interpretasse suas canções mais consagradas. Mesmo sob uma chuva fina, o público não deixou o estádio e permaneceu até o fim da apresentação.
Após a terceira música do repertório, Mercedes Sosa pediu silêncio à plateia antes de prosseguir com o show.
"Escutem uma mulher que não está somente cantando, mas dizendo algo", disse Mercedes Sosa ao público, segundo o registro sonoro da apresentação.
O repertório completo da noite
O show de Mercedes Sosa em Santa Rosa, em 1984, teve um repertório de 17 canções, que somava composições de artistas latino-americanos consagrados a parcerias com músicos gaúchos e brasileiros. A lista completa das músicas apresentadas naquela noite foi a seguinte:
1) 'Todavía cantamos', de Víctor Heredia; 2) 'Duerme negrito', de Atahualpa Yupanqui; 3) 'Será posible el sur', de Jorge Boccanera e Carlos Peralta; 4) 'Para Cândido Portinari', de Nicolás Guillén e Horacio Salinas; 5) 'Unicornio', de Silvio Rodríguez; 6) 'Plegaria al labrador', de Víctor Jara; 7) 'Ventanita de Laurel', de Víctor Heredia; 8) 'Como Pájaros En El Aire', de Peteco Carabajal.
9) 'El cosechero', de Ramón Ayala; 10) 'Vira viró', de Kleiton Ramil; 11) 'Siembra', de José Fogaça e Vitor Ramil; 12) 'Corazón de estudiante', de Milton Nascimento e Wagner Tiso; 13) 'Solo le pido a Dios', de León Gieco; 14) 'La carta', de Violeta Parra; 15) 'La maza', de Silvio Rodríguez; 16) 'Maria, maria', de Milton Nascimento e Fernando Brant; e 17) 'Canción con todos', de Julio Isella e Armando Tejada Gómez, que encerrou o show.
Por: Redação Tá Sabendo MT (Redação Tá Sabendo MT, com informações de Jornal do Comércio (Cultura))