Discoteca Pública Natho Henn completa 71 anos como santuário da música em Porto Alegre
Acervo com mais de 70 mil itens, entre vinis, CDs, partituras e vídeos, funciona no quarto andar da Casa de Cultura Mario Quintana e recebe visitantes gratuitamente
Wikimedia Commons / Theo Wiederspahn
A Discoteca Pública Natho Henn completou 71 anos de existência no último dia 14, marcando sete décadas dedicadas à preservação e à divulgação da produção musical local, nacional e internacional. Instalada no quarto andar da Casa de Cultura Mario Quintana, na Rua dos Andradas, 736, no Centro Histórico de Porto Alegre, a instituição guarda um acervo de mais de 70 mil itens, que incluem partituras, discos em vinil, CDs, DVDs, vídeos e outras mídias, todos com acesso público e gratuito.
Um acervo que é história viva da música
Nos corredores da discoteca, é possível encontrar desde nativismo e música clássica até samba, rock, jazz, música instrumental brasileira e trilhas sonoras de cinema. A ampla variedade de gêneros musicais parece compor a própria estrutura física do espaço, já que vinis e CDs cobrem as paredes do teto ao chão, como se fossem a matéria-prima do lugar, substituindo o concreto e os tijolos tradicionais.
O acervo foi formado ao longo dos anos por meio de doações de cantores, compositores e intelectuais, além de contribuições de instituições culturais como o Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore e o Instituto Goethe. Essas parcerias ajudaram a consolidar um dos maiores repositórios musicais públicos do Estado.
Missão de difusão e educação musical
Desde sua criação, o espaço foi concebido para promover um trabalho de difusão e educação musical, com audições públicas e comentadas voltadas especialmente à música clássica. Entre os objetivos originais da Discoteca estavam estimular o interesse e a capacidade de apreciação musical da população, além de oferecer lazer e entretenimento aos cidadãos.
Esses propósitos permanecem até hoje como eixo central das atividades da instituição, mas foram ampliados com a criação de novos espaços e atrações. Atualmente, a programação inclui audições individuais, audições comentadas, oficinas, cursos, exposições, apresentações de recitais e conferências, diversificando as formas de interação do público com o acervo.
O valor do espaço físico na era do streaming
Em um período marcado pelo streaming, pela internet e pelo acesso ilimitado a diferentes formatos de arte, a existência de um espaço físico dedicado à música ganha ainda mais relevância. Além de preservar parte da história musical nacional e internacional, a Discoteca se consolida como um ambiente de trocas, encontros e descobertas entre diferentes gerações de ouvintes.
O local também contribui para a manutenção de um verdadeiro ritual de escuta musical: escolher o vinil, apreciar a arte da capa, posicionar o disco na vitrola, ajustar cuidadosamente a agulha e, então, aguardar o som que emerge da caixa de som. Trata-se de uma experiência que vai muito além de simplesmente apertar o play, configurando uma espécie de fuga analógica que envolve todos os sentidos humanos — audição, tato, olfato e visão.
"Tem muitos casos de pais e mães que trazem seus filhos pequenos aqui para mostrar como era escutar música em vinil, em CD. Muitos não conhecem a música na mídia física, não sabem que tem que virar o disco quando o primeiro lado termina. É um momento de descoberta entre gerações", afirma Igor Baggio, analista de políticas públicas da Discoteca.
Visitação gratuita e programação especial
Os interessados em conhecer o acervo podem visitar o espaço gratuitamente de terça a sábado, das 9h às 18h, para realizar audições individuais, pesquisas em partituras ou simplesmente conhecer as instalações. A programação de exposições e audições comentadas está disponível no site da instituição.
Até o dia 15 de maio, a Discoteca recebe a exposição "Festivais Nativistas – Resgatando o acervo documental e discográfico da Fundação Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (FIGTF)". A mostra reúne discos dos principais festivais de música nativista do Rio Grande do Sul, além de recortes de jornais sobre a extinta Fundação. A visitação a essa exposição específica ocorre gratuitamente de terça a sexta-feira, das 14h às 18h.
Sete décadas de mudanças de endereço até a chegada à Casa de Cultura
Ao longo de sua trajetória de sete décadas, a Discoteca passou por diversos endereços em Porto Alegre antes de se fixar definitivamente no quarto andar do prédio rosa mais famoso da cidade. A instituição começou, na década de 1950, funcionando em um casarão na Praça Dom Feliciano, onde permaneceu até 1960.
Na sequência, o acervo passou pelas ruas Carlos Chagas, Uruguai e Vigário José Inácio, entre os anos de 1960 e 1975. Depois, estabeleceu-se na Rua Otávio Rocha, onde ficou de 1975 até 1983. Posteriormente, a Discoteca funcionou por seis anos no Hotel Majestic e, em 1989, foi transferida para o Museu do Trabalho. Somente em 1990 o acervo encontrou sua sede definitiva na Casa de Cultura Mario Quintana.
Novos espaços ampliam o legado musical
Atualmente, a estrutura da Discoteca conta com a Biblioteca Armando Albuquerque, o Auditório Luis Cosme, o Palco Lory F, a Sala Radamés Gnattali, a Sala Irmãos Moritz e o Espaço Lupicínio Rodrigues. Esse conjunto de ambientes forma o que pode ser descrito como um verdadeiro arquipélago cultural dentro da Casa de Cultura.
Esse arquipélago está em constante expansão. No ano passado, foi inaugurado um novo espaço: a Sala Paulo Moreira, criada em homenagem ao jornalista cultural falecido em 2023. A sala abriga uma coleção com mais de 2 mil CDs de jazz, doada pela família do repórter à Discoteca.
"É talvez a coleção de jazz mais importante do Estado", avalia Igor Baggio, analista de políticas públicas da instituição, sobre o acervo reunido na Sala Paulo Moreira.
Por: Redação Tá Sabendo MT (Redação Tá Sabendo MT, com informações de Jornal do Comércio (Cultura))