Relatório da Abin identifica grupos que discutem ações violentas contra o STF
Documento de 18 de setembro classifica como alto o nível de alerta na segurança das eleições gerais de 2026, dez dias antes do primeiro turno
Wikimedia Commons / [Portaria GSI/PR nº 95, de 8 de novembro de 2021 https://www.gov.br/abin/pt-br/assuntos/noticias/ABINtemnovalogomarcaPortariaopo1.pdf]
Um relatório produzido pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), datado de 18 de setembro, registrou aumento na formação de grupos que discutem ações violentas contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e outras instituições do país. O documento classifica como alto o nível de alerta no acompanhamento da segurança das eleições gerais de 2026, marcadas para o primeiro turno em 4 de outubro.
O conteúdo do relatório foi obtido e revelado pela jornalista Daniela Lima, do UOL. Até o fechamento desta reportagem, a Abin não havia divulgado publicamente o documento, e o Nossa República não teve acesso independente à sua íntegra.
O que motivou o aumento do monitoramento
De acordo com a apuração, o monitoramento identificou crescimento das movimentações em ambientes digitais logo depois da sessão extraordinária realizada pelo STF em 15 de setembro, na qual os ministros começaram a discutir duas petições relacionadas aos desdobramentos do caso Banco Master.
Uma das petições teve origem em relatório produzido pela Polícia Federal a partir de informações extraídas do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição financeira. O plenário do STF, no entanto, não chegou a concluir o julgamento das questões apresentadas naquela sessão.
O ministro Flávio Dino pediu vista do processo antes do fim da discussão, interrompendo a análise do colegiado. Já o ministro Kassio Nunes Marques declarou-se impedido de participar do julgamento, enquanto Dias Toffoli se declarou suspeito por motivo de foro íntimo.
Grupos em WhatsApp e Telegram, com foco em três regiões
Segundo o levantamento da inteligência, os grupos identificados atuam principalmente por meio de aplicativos de mensagens como WhatsApp e Telegram. São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília aparecem como as áreas de maior incidência das movimentações mapeadas pelos órgãos de monitoramento.
O período classificado como de alerta alto compreende os dias 15 a 24 de setembro — uma janela de dez dias que antecede o primeiro turno das eleições gerais de 2026, previsto para 4 de outubro.
Segundo o UOL, participantes desses grupos discutem formas de mobilização e potenciais alvos das ações. O documento também traz referências ao termo "nepalização" do Brasil, expressão relacionada aos protestos violentos ocorridos no Nepal em 2025 e que passou a ser usada, segundo a apuração, entre integrantes desses grupos para se referir a um cenário de instabilidade institucional no país.
Limites do que se sabe até agora
As informações conhecidas publicamente não permitem estabelecer quantos grupos estão sob monitoramento, quantas pessoas participam deles, nem se foram identificados planos operacionais concretos para a realização de ataques.
Também não há elementos públicos suficientes para determinar se as pessoas monitoradas dispõem de organização, recursos financeiros ou capacidade logística para executar as ações que são discutidas nesses ambientes digitais.
Essa distinção é relevante porque manifestações de conteúdo violento em redes sociais e aplicativos de mensagens constituem, por si só, informação de interesse dos órgãos de inteligência — mas não representam, isoladamente, prova da preparação efetiva de um atentado contra instituições.
Organizações criminosas e influência sobre eleições em municípios
O relatório atribuído à Abin também registra situações em que organizações criminosas estariam interferindo no processo eleitoral em determinadas localidades do país.
Segundo a apuração de Daniela Lima, foram identificados territórios em que grupos criminosos exercem influência sobre a circulação de pessoas e podem interferir nas condições em que a disputa eleitoral ocorre. As informações divulgadas até agora não identificam os municípios afetados nem apresentam dados suficientes para dimensionar a extensão dessas ocorrências.
Relatórios de inteligência sobre ameaças ao processo eleitoral costumam ser compartilhados com os órgãos responsáveis pela segurança das eleições, entre eles o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
TSE já havia reforçado a segurança da votação
A revelação do relatório da Abin ocorre em um momento em que a Justiça Eleitoral já adota medidas específicas voltadas à segurança da votação de 2026. O TSE e o Ministério da Justiça estabeleceram regras conjuntas para a atuação da Polícia Rodoviária Federal e de outros órgãos federais de segurança durante os dias de eleição.
A Portaria Conjunta TSE nº 4/2026, publicada em 18 de setembro — mesma data do relatório da Abin —, determina que operações de fiscalização, policiamento e patrulhamento não criem obstáculos injustificados ao deslocamento dos eleitores até as urnas.
Pela norma, bloqueios em rodovias federais deverão ser previamente comunicados ao Tribunal Regional Eleitoral correspondente, com indicação da justificativa, da finalidade da ação e de rotas alternativas disponíveis aos eleitores. A comunicação antecipada pode ser dispensada apenas em situações de flagrante infração ou crime.
O TSE também já havia autorizado o emprego das Forças Armadas para Garantia da Votação e da Apuração em pelo menos oito estados brasileiros durante o primeiro turno das eleições. Mato Grosso está entre eles: o Tribunal aprovou, em 1º de setembro, pedidos de reforço federal para 30 municípios do estado.
Essas decisões sobre reforço de segurança e emprego das Forças Armadas foram tomadas antes da divulgação do relatório atribuído à Abin e não decorrem diretamente das ameaças agora reveladas pela reportagem do UOL — tratam-se de providências já previstas no planejamento eleitoral do TSE para o pleito de 2026.
Metodologia e fontes da apuração
A informação sobre o relatório de 18 de setembro foi revelada originalmente pela jornalista Daniela Lima, do UOL. O Nossa República não teve acesso independente à íntegra do documento atribuído à Abin. As informações relativas às providências da Justiça Eleitoral, às datas das eleições gerais de 2026 e ao emprego de forças federais foram confrontadas com registros oficiais do Tribunal Superior Eleitoral.
A reportagem faz questão de distinguir as manifestações identificadas em ambientes digitais de eventuais evidências de planejamento ou capacidade operacional efetiva para a realização de ataques contra instituições, uma vez que essa distinção ainda não foi esclarecida publicamente pelos órgãos de segurança.
Por: Redação Tá Sabendo MT (Redação Tá Sabendo MT, com informações de Nossa República)