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Quando cuidar vira controle?

Quando cuidar vira controle?

Redação Tá Sabendo MT

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Cuidar de alguém parece, à primeira vista, uma das formas mais bonitas de demonstrar afeto. Perguntar se chegou bem, lembrar de uma consulta, oferecer ajuda quando percebe que alguma coisa não vai bem, preocupar-se quando alguém que amamos enfrenta uma dificuldade. São gestos que fazem parte dos vínculos e, muitas vezes, dizem nas entrelinhas: “Você é importante para mim”.

Mas existe uma fronteira delicada entre cuidar e controlar. E nem sempre percebemos quando o cuidado começa a passar desse limite.

Há pais que acompanham cada passo dos filhos, tentando evitar que se decepcionem, sofram ou façam escolhas das quais possam se arrepender. Há casais em que um precisa saber onde o outro está, com quem saiu, a que horas voltará e por que demorou a responder uma mensagem. Há ainda aqueles pais que continuam tentando organizar a vida dos filhos já crescidos.

Em muitos desses casos, não existe uma intenção consciente de controle. Existe preocupação, medo e, às vezes, a sensação de que, se estivermos atentos o suficiente, conseguiremos impedir que alguma coisa ruim aconteça. É justamente aí que o cuidado pode começar a mudar de lugar.

Cuidar significa estar disponível para o outro. Controlar envolve uma tentativa de interferir em suas escolhas para diminuir uma incerteza que, muitas vezes, não conseguimos suportar.

Quando alguém precisa saber tudo, opinar sobre tudo ou decidir pelo outro, a preocupação deixa de ser apenas uma forma de presença e passa a ocupar um espaço que deveria pertencer à autonomia de quem está sendo cuidado.

Na psiquiatria, compreender esse comportamento exige olhar para além daquilo que aparece. A necessidade de controlar pode, em algumas situações, estar relacionada à dificuldade de lidar com a incerteza, com o medo de perder alguém ou com a sensação de que não seremos capazes de enfrentar aquilo que pode acontecer.

É como se controlar trouxesse a promessa de que, mantendo tudo sob vigilância, talvez fosse possível evitar o sofrimento. Saber onde o filho está pode aliviar a preocupação dos pais por alguns minutos. Conferir repetidamente se o companheiro está bem pode diminuir momentaneamente a insegurança. Resolver antecipadamente os problemas de alguém pode produzir a sensação de que nada sairá errado.

Mas o alívio costuma durar pouco. A dúvida reaparece e surge novamente a necessidade de perguntar, verificar ou interferir, como um “círculo vicioso”. Aos poucos, aquilo que começou como uma tentativa de aliviar a preocupação pode acabar alimentando-a.

Do outro lado da relação, entretanto, existe alguém que pode começar a se sentir vigiado, desacreditado ou sem espaço para fazer as próprias escolhas. É nesse ponto que o cuidado pode deixar de ser percebido como cuidado.

Mas, nem toda preocupação é ansiedade, e nem todo controle nasce da insegurança. Uma mãe que telefona para saber se o filho chegou bem não está necessariamente controlando sua vida. Um casal pode trocar informações sobre seus horários por uma questão de organização, sem que isso tenha qualquer relação com controle.

A psiquiatria procura compreender a história, as emoções e os vínculos que influenciam cada comportamento. Afinal, atitudes semelhantes podem ter significados muito diferentes dependendo de quem as pratica, da relação em que acontecem e da maneira como se repetem.

Há também uma questão importante relacionada à autonomia. Quando fazemos constantemente pelo outro aquilo que ele já poderia fazer sozinho, acabamos ocupando um espaço que deveria ser dele. Escolher, experimentar, errar e lidar com as consequências fazem parte da construção de uma vida própria. Por isso, proteger alguém de todas as dificuldades pode parecer cuidado, mas também pode dificultar que essa pessoa descubra como lidar com a própria vida.

Isso aparece de maneira muito clara na relação entre pais e filhos. Proteger uma criança de situações que ela ainda não tem condições de enfrentar é parte do cuidado. Mas, à medida que ela cresce, cuidar também significa permitir que faça algumas coisas sozinha, experimente pequenas frustrações e encontre suas próprias soluções.

O mesmo acontece na vida adulta. Por mais que conheçamos alguém, não podemos escolher por essa pessoa. Podemos aconselhar, demonstrar preocupação e compartilhar aquilo que aprendemos com a própria experiência. Mas existe uma diferença entre oferecer um caminho e tentar obrigar o outro a segui-lo.

Essa diferença nem sempre é confortável para quem ama. É difícil assistir alguém de quem gostamos tomar uma decisão que consideramos equivocada. É difícil permitir que um filho crescido enfrente as consequências de uma escolha. É difícil aceitar que o companheiro tenha pensamentos e dinâmicas diferentes de viver, que não coincidem exatamente com as nossas.

Mas amar alguém também é reconhecer que essa pessoa tem uma vida própria. Talvez uma das formas mais difíceis de cuidar seja justamente saber quando recuar.

Não porque deixamos de nos importar, mas porque entendemos que existem experiências que precisam ser vividas pelo outro. Há aprendizados que não podem ser feitos por procuração, escolhas que ninguém pode assumir em nosso lugar e caminhos que só conseguimos conhecer depois de percorrê-los.

Cuidar não é impedir que a vida aconteça. É estar presente quando ela acontece. E talvez amadurecer nas relações seja aprender que estar ao lado de alguém não significa estar no comando de sua vida.

Nas relações, às vezes, o amor precisa perguntar: “Como posso ajudá-lo?”. Outras vezes, precisa conseguir dizer: “Eu confio que você pode escolher”.

Porque cuidar é oferecer presença, mas também respeitar a liberdade.

E ninguém pode viver a vida do outro.

Dra Leícia Assunção – médica psiquiatra e intervencionista.

Por: Redação Tá Sabendo MT

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