Soroterapia: entre a indicação médica e as promessas de saúde sem comprovação científica
Endocrinologista de Cuiabá alerta que aplicação intravenosa de vitaminas e minerais em pessoas saudáveis carece de evidências e pode trazer riscos, enquanto Anvisa reforça que o procedimento deve ter indicação clínica
Pexels / Mikhail Nilov
A chamada soroterapia, prática que consiste na aplicação intravenosa de vitaminas, minerais, aminoácidos e outras substâncias, ganhou popularidade nos últimos anos nas redes sociais e em clínicas particulares, sendo divulgada como solução para aumentar a disposição, melhorar a imunidade, combater o cansaço, favorecer o emagrecimento e até retardar o envelhecimento. Uma médica endocrinologista que atua na Fetal Care, em Cuiabá (MT), alerta, no entanto, que boa parte dessas promessas carece de comprovação científica e que o procedimento só deve ser realizado quando há indicação médica baseada em diagnóstico.
A diferença entre terapia médica e tratamento estético
Segundo a especialista, é preciso separar dois usos distintos da via intravenosa. De um lado, está a terapia intravenosa utilizada pela medicina há décadas, recurso legítimo e fundamental em situações como desidratação, internações hospitalares ou quando o paciente apresenta deficiência nutricional comprovada e não consegue repor determinada substância por outras vias. De outro, está o que passou a ser comercializado como uma espécie de "soro para melhorar a saúde", oferecido a pessoas sem qualquer diagnóstico de deficiência ou condição clínica que justifique o procedimento.
A médica explica que a administração de líquidos, medicamentos ou nutrientes diretamente na corrente sanguínea é uma ferramenta médica reconhecida, mas que o problema surge quando essa técnica passa a ser aplicada de forma indiscriminada, sem qualquer investigação prévia sobre a real necessidade do paciente.
Anvisa aponta falta de evidências científicas
A reportagem destaca que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já se manifestou sobre o tema, alertando para a popularização de soros vendidos com promessas de mais energia, fortalecimento da imunidade, rejuvenescimento ou efeito "detox". De acordo com a Agência, não existem evidências científicas que comprovem esses benefícios em pessoas saudáveis, e a administração intravenosa de nutrientes deve ser reservada para necessidades clínicas identificadas, sempre sob orientação de profissional habilitado.
Excesso de vitaminas pode causar danos ao organismo
Na avaliação da endocrinologista, a discussão é especialmente relevante para sua área de atuação, já que vitaminas, minerais e outros nutrientes participam de diversos processos metabólicos e hormonais. Isso, contudo, não significa que aumentar artificialmente suas concentrações no organismo resulte automaticamente em mais saúde.
"O organismo funciona dentro de um equilíbrio, e mais nem sempre significa melhor. Quando existe uma deficiência verdadeira, a reposição pode ser necessária e trazer benefícios importantes. Mas, quando os níveis estão adequados, acrescentar doses elevadas de determinadas substâncias não necessariamente melhora o funcionamento do corpo", afirma a endocrinologista da Fetal Care.
A médica cita como exemplo o caso das vitaminas, sobre as quais existe a percepção equivocada de que, por serem nutrientes necessários ao organismo, quanto maior a quantidade ingerida ou aplicada, melhor seria o resultado. Segundo ela, isso não corresponde à realidade. Algumas vitaminas, especialmente as lipossolúveis, podem se acumular no organismo e, quando utilizadas em excesso, provocar hipervitaminose e efeitos adversos importantes.
"O excesso de vitamina D, por exemplo, pode causar hipercalcemia e comprometer a função dos rins, podendo, em casos graves, levar até à necessidade de hemodiálise", explica a especialista.
Aplicação intravenosa não é isenta de riscos
Outro ponto destacado pela endocrinologista é que a própria via de administração intravenosa não está livre de riscos. Como qualquer intervenção desse tipo, o procedimento pode estar associado a complicações, incluindo reações adversas, quadros alérgicos e infecções. Por esse motivo, a médica defende que a prática não deve ser banalizada como se fosse equivalente ao uso de um suplemento comum vendido em farmácias.
Crítica à ideia de "coquetéis personalizados"
A médica também questiona o conceito de "personalização" utilizado por algumas clínicas para justificar a combinação de diferentes substâncias em um mesmo soro. Segundo ela, a medicina individualizada não significa escolher uma combinação de vitaminas com base apenas em sintomas inespecíficos como cansaço, estresse ou falta de disposição.
"Esses sintomas podem ter inúmeras causas, desde alterações na qualidade do sono e hábitos de vida até anemia, doenças da tireoide, diabetes e outras condições metabólicas. É justamente aí que entra o papel da endocrinologia: investigar antes de repor", afirma a médica.
Diagnóstico deve vir antes de qualquer reposição
Para a especialista, quando uma pessoa apresenta cansaço persistente, ganho ou perda de peso inexplicados, queda de rendimento ou outras alterações no organismo, o primeiro passo deve ser sempre a investigação clínica, e não a aplicação imediata de um soro. A avaliação médica, associada aos exames realmente necessários, permite identificar se existe uma deficiência nutricional, uma alteração hormonal ou outra doença que precise ser tratada.
Segundo a médica, quando uma deficiência é efetivamente diagnosticada, cabe ao profissional definir se há necessidade de reposição, qual substância deve ser utilizada, em que dose e por qual via de administração. Em muitos casos, alimentação adequada ou suplementação por via oral já são suficientes para corrigir o problema. Apenas em situações específicas a administração intravenosa estaria indicada.
Ferramenta médica, não solução universal
A endocrinologista ressalta que sua intenção não é demonizar a soroterapia nem transformá-la em solução para todos os problemas de saúde, mas sim reforçar que a terapia intravenosa é uma ferramenta da medicina e, como qualquer ferramenta, precisa ter indicação clara para ser utilizada com segurança.
"Em uma época em que soluções rápidas para emagrecer, ter mais energia, aumentar a imunidade ou retardar o envelhecimento ganham enorme repercussão nas redes sociais, vale lembrar um princípio simples: nosso organismo não precisa receber tudo em excesso. Precisa receber aquilo de que realmente necessita", diz a médica.
A especialista conclui que, antes de colocar qualquer substância diretamente na corrente sanguínea, a pergunta mais importante não deveria ser "qual soro eu posso tomar?", mas sim se a pessoa realmente precisa daquela reposição. Segundo ela, essa resposta deve começar sempre por um diagnóstico médico, e não por uma promessa comercial.
Por: Redação Tá Sabendo MT (Redação Tá Sabendo MT, com informações de Nossa República)