Curiosidades

Estudo mostra que guerra na Ucrânia alterou comportamento de animais em Chernobyl

Pesquisa publicada na revista Science revela que ocupação militar russa por 36 dias mudou hábitos de mamíferos na Zona de Exclusão

Estudo mostra que guerra na Ucrânia alterou comportamento de animais em Chernobyl

Wikimedia Commons / Nick Rush-Cooper (Cooper42)

Publicado em
Compartilhar:

Quase 40 anos depois do pior acidente nuclear da história, a região de Chernobyl havia se transformado em um refúgio improvável para a vida selvagem, mas um novo estudo publicado na revista Science revela que a invasão russa de 2022 interrompeu esse processo de recuperação e alterou de forma mensurável o comportamento de diversas espécies de mamíferos que vivem na área.

Décadas de recuperação natural

Após a explosão do reator da usina nuclear, em 1986, cerca de 120 mil pessoas foram retiradas da região, que passou a ter acesso rigidamente controlado devido à contaminação radioativa. Sem cidades em expansão, agricultura ou trânsito constante de pessoas, as florestas avançaram sobre antigas áreas urbanas, e animais como lobos, linces, cervos e raposas voltaram a ocupar o território ao longo dos anos.

Esse cenário de recuperação da natureza, no entanto, sofreu uma nova interrupção em 2022, quando tropas russas invadiram a Ucrânia e ocuparam por 36 dias a Zona de Exclusão de Chernobyl, a área evacuada e isolada ao redor da usina.

Câmeras registraram a rotina animal antes, durante e depois da guerra

Um novo estudo, publicado na revista científica Science, mostra que esse curto período de ocupação foi suficiente para alterar o comportamento de diversos mamíferos que habitam a região.

"Nossos resultados fornecem informações sobre como a vida selvagem reage a conflitos armados em tempo real. A guerra não afeta apenas os humanos", disse a bióloga Svitlana Kudrenko ao jornal The New York Times.

A pesquisa só foi possível porque o projeto de monitoramento havia começado antes do conflito. Em 2020, Kudrenko e seus colegas instalaram dezenas de armadilhas fotográficas na Zona de Exclusão para estudar a biodiversidade da região, com foco especial na população de linces-eurasiáticos. Essas câmeras são acionadas automaticamente por sensores infravermelhos sempre que um animal passa em frente ao equipamento, registrando imagens sem interferir no comportamento das espécies.

Quando a invasão russa começou, em 24 de fevereiro de 2022, os equipamentos continuaram funcionando normalmente. Durante pouco mais de um mês, as tropas utilizaram a área como base militar: tanques circularam por estradas e florestas, trincheiras foram escavadas, minas terrestres foram enterradas e houve explosões, bombardeios e incêndios na região.

Depois que as forças russas deixaram Chernobyl, em 1º de abril de 2022, os pesquisadores conseguiram recuperar os cartões de memória de 31 câmeras, com apoio das Forças Armadas da Ucrânia, que precisaram primeiro remover minas espalhadas pela área.

As imagens registraram de forma contínua a movimentação dos animais antes, durante e depois da ocupação militar. Para verificar se as mudanças de comportamento coincidiam com os momentos mais intensos do conflito, os cientistas também criaram um índice diário de intensidade da guerra.

Esse índice foi elaborado a partir de entrevistas com 25 pessoas, entre funcionários da usina, moradores da zona de exclusão e habitantes das áreas vizinhas. Cada dia recebeu uma nota de zero a dez, levando em conta desde a passagem de veículos militares até bombardeios de artilharia e ataques aéreos. Os pesquisadores também incorporaram dados de satélite que identificavam incêndios e outros focos de calor provocados pelos combates.

Reações diferentes conforme a espécie

Ao todo, o estudo analisou registros de 11 espécies de mamíferos, incluindo veados-vermelhos, corços (uma espécie específica e de menor porte de veado), raposas-vermelhas, javalis, lebres, lobos e linces.

Antes de analisar os dados, os pesquisadores imaginavam que os animais passariam a evitar ainda mais a presença humana e concentrariam suas atividades durante a noite. O resultado observado, contudo, foi exatamente o contrário para algumas espécies.

Os veados-vermelhos, por exemplo, passaram a aparecer mais durante o dia e reduziram sua atividade noturna conforme os confrontos se intensificavam. As raposas-vermelhas mostraram uma tendência semelhante. Já os corços seguiram um caminho diferente: foram registrados cada vez menos pelas câmeras à medida que a intensidade da guerra aumentava.

A explicação está no comportamento típico de cada espécie. Segundo Kudrenko, os corços costumam reagir ao perigo permanecendo imóveis e escondidos na vegetação, enquanto os veados-vermelhos fazem o oposto, tendendo a fugir rapidamente quando percebem uma ameaça.

Como esses cervos vivem principalmente em áreas abertas, justamente onde houve maior circulação de tropas e veículos militares, é provável que tenham se deslocado com mais frequência para escapar do conflito, o que aumentou as chances de serem registrados pelas câmeras.

As lebres-pardas também mudaram de comportamento. Nos dias em que imagens de satélite indicavam incêndios relacionados aos combates, elas passaram a circular mais durante a noite. Segundo Kudrenko, isso pode indicar uma tentativa de escapar das áreas atingidas pelo fogo.

Já os lobos-cinzentos e os linces-eurasiáticos apresentaram poucas mudanças detectáveis. Os pesquisadores levantam duas possibilidades para explicar esse resultado: a primeira é que essas espécies apareceram poucas vezes nas câmeras, dificultando a identificação de padrões; a segunda é que a própria dimensão da Zona de Exclusão, uma área de cerca de 2.600 quilômetros quadrados, ainda oferece espaço suficiente para que esses animais evitem os locais mais afetados pela atividade militar.

Ecossistema recuperado se transforma em paisagem militarizada

"Nossos resultados mostram que os padrões de atividade dos mamíferos, particularmente sua atividade noturna, mudaram durante a intensificação do conflito armado", disse o ecólogo Marco Heurich, coautor do estudo, em comunicado.
"Isso aponta para uma transformação mais ampla da Zona de Exclusão de Chernobyl, de um ecossistema que, na ausência de perturbação humana, havia se recuperado do desastre do reator, para uma paisagem militarizada na qual o uso do habitat e o comportamento da vida selvagem mudaram", acrescentou Heurich.

Vale ressaltar que ainda não é possível saber se essas mudanças terão consequências duradouras para as populações de animais da região. O estudo analisou apenas alterações de comportamento, e outros possíveis impactos da guerra, como destruição de habitats, poluição causada pelo conflito ou mortes diretas de animais, ficaram fora do escopo da pesquisa.

Por: Redação Tá Sabendo MT (Redação Tá Sabendo MT, com informações de Superinteressante)

Compartilhar: