Bolsa de "couro de tiranossauro" não encontra comprador em leilão em Paris
Peça criada por reconstrução celular de colágeno fóssil era avaliada em até US$ 580 mil, mas maior lance ficou em US$ 170 mil
Wikimedia Commons / ScottRobertAnselmo
Uma bolsa apresentada como feita de "couro de tiranossauro", desenvolvida por meio de reconstrução celular a partir de colágeno fóssil, foi a novidade mais intrigante do mercado de luxo em abril deste ano. Avaliada em milhões de reais, a peça criada pela marca Efin Levé gerou intenso debate científico sobre sua real autenticidade e, em junho, acabou não encontrando comprador em um leilão organizado especialmente para vendê-la, em Paris.
Protagonista dos filmes da franquia Jurassic Park e de incontáveis brinquedos infantis, o tiranossauro está extinto há 66 milhões de anos. Ainda assim, o mercado da moda recebeu, em abril, um anúncio que soou intrigante e até inusitado: o lançamento de uma bolsa de "couro de tiranossauro".
À primeira vista, a informação poderia ser confundida com fake news ou até com uma imagem gerada por inteligência artificial. No entanto, a notícia é real. Obviamente, não se trata de uma bolsa fabricada diretamente com fósseis, mas sim de uma reconstrução celular do que teria sido a pele do famoso T. rex.
Como foi criado o "couro de T. rex"
Lançada pela marca de techwear (roupas tecnológicas) Efin Levé, a bolsa foi resultado de um longo e complexo processo científico. A equipe responsável partiu de fragmentos da proteína colágeno preservados em um fóssil do fêmur de um T. rex encontrado no estado americano de Montana.
É importante destacar que não se trata do DNA do dinossauro, já que essa molécula não consegue se manter preservada por dezenas de milhões de anos.
A partir dos fragmentos de colágeno, os pesquisadores utilizaram técnicas de biologia computacional e modelagem por inteligência artificial para reconstruir as partes faltantes da proteína, criando uma estimativa da sequência genética que teria dado origem a ela. Para isso, recorreram como referência a estruturas de proteínas já conhecidas de outros animais, principalmente as de galinhas, consideradas os parentes vivos mais próximos dos dinossauros.
Essa sequência reconstruída foi então sintetizada em laboratório e inserida em células hospedeiras, que passaram a produzir o colágeno, dando origem, finalmente, ao material batizado de "couro de T. rex".
A peça final é feita a partir dessas células cultivadas em laboratório e não utiliza plástico, como ocorre no couro sintético, nem exige o abate de animais, como no couro tradicional. Ao mesmo tempo, a marca promete que o material tem durabilidade e composição semelhantes às do couro de origem animal.
Dúvidas científicas sobre a autenticidade
Apesar de toda a inovação tecnológica envolvida, a maior questão em torno da bolsa não diz respeito à qualidade do material, mas sim às dúvidas levantadas pela comunidade científica sobre sua real origem.
De fato, a peça foi produzida com base em fragmentos de colágeno encontrados no fóssil do fêmur do T. rex. Porém, para parte dos pesquisadores, ainda não é possível afirmar com certeza que essas proteínas realmente pertencem ao dinossauro, já que é extremamente improvável que moléculas orgânicas tenham sobrevivido intactas por mais de 60 milhões de anos.
Segundo essa hipótese, as estruturas encontradas no fóssil poderiam pertencer, na verdade, a organismos que colonizaram os ossos ao longo do tempo geológico, como bactérias, e não ao próprio animal pré-histórico.
Além desse debate sobre a origem do material, outros cientistas apontam um problema adicional: devido ao tamanho reduzido do fragmento de colágeno efetivamente preservado no fóssil, a maior parte do chamado "couro de tiranossauro" seria, na prática, derivada das proteínas de outros animais utilizadas como referência para reconstruir a sequência genética faltante — principalmente as galinhas.
Expectativa milionária e leilão frustrado
Mesmo em meio às controvérsias científicas, a bolsa foi anunciada pela Efin Levé como o "primeiro produto do mundo feito de couro de T. rex" e como uma "bolsa de luxo única". A expectativa da empresa era arrecadar centenas de milhares de dólares com a venda da peça.
A bolsa foi avaliada em uma faixa que variava entre US$ 350 mil e US$ 580 mil, o equivalente a cerca de R$ 1,8 milhão a R$ 3 milhões, considerando a cotação da moeda na época.
Para viabilizar a venda, foi organizado, em junho, um leilão exclusivo em Paris, voltado especificamente para a comercialização dessa peça considerada única no mercado de luxo mundial.
A reação dos potenciais compradores, no entanto, ficou bem abaixo do esperado pela marca. Nenhum lance chegou perto da estimativa de valor divulgada anteriormente: a maior oferta registrada durante o leilão foi de apenas US$ 170 mil, valor consideravelmente inferior ao piso mínimo esperado de US$ 350 mil.
Diante da falta de lances condizentes com a avaliação, a bolsa acabou o leilão sem encontrar comprador. No fim, ficou demonstrado que adquirir uma bolsa feita a partir de material inspirado em dinossauro não era um desejo tão forte entre os colecionadores e compradores de luxo quanto a empresa Efin Levé havia calculado inicialmente.
Por: Redação Tá Sabendo MT (Redação Tá Sabendo MT, com informações de Superinteressante)