Curiosidades

Por que a febre parece piorar durante a noite

Especialistas explicam como o ritmo circadiano térmico e mudanças hormonais fazem a temperatura corporal subir mais ao entardecer e à noite, mesmo sem agravamento real da doença

Por que a febre parece piorar durante a noite

Pexels / Jessica Lewis 🦋 thepaintedsquare

Publicado em
Compartilhar:

O corpo humano fica naturalmente mais quente no início da noite, e é justamente nesse período que os quadros infecciosos tendem a acompanhar esse ritmo, fazendo com que a febre pareça mais intensa para quem está doente. A explicação está relacionada ao chamado ritmo circadiano térmico, um ciclo natural de variação da temperatura corporal ao longo do dia.

O relógio biológico da temperatura corporal

De acordo com esse ritmo, a temperatura do corpo atinge seus valores mais baixos no fim da madrugada, geralmente entre 4h e 6h da manhã. Já o pico ocorre no fim da tarde e início da noite, entre 16h e 20h, podendo haver uma variação de até 1°C entre os extremos do dia.

Esse padrão se mantém mesmo quando a pessoa está com febre, mas em um patamar mais elevado. Por isso, é comum que a temperatura pareça disparar justamente na hora de dormir.

"Uma febre que mal aparece à tarde, com 37,8°C, pode marcar 38,8°C ou 39°C na hora de dormir, mesmo sem nenhuma piora real do quadro", explica Marco Aurélio Sáfadi, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

O papel dos hormônios e das citocinas

Além do ritmo circadiano, outro fator importante é a queda dos níveis de cortisol ao longo da noite. Esse hormônio tem ação anti-inflamatória, e sua redução noturna favorece a intensificação de sintomas como a febre.

Em compensação, há um aumento da atividade de citocinas pró-inflamatórias durante a noite — substâncias como IL-6, IL-1 e TNF-alfa, que atuam elevando a temperatura corporal como parte da resposta do organismo a uma infecção.

A febre, aliás, integra a estratégia natural de defesa do corpo, que intensifica a resposta imunológica durante o sono. O aumento da temperatura dificulta a multiplicação de vírus e bactérias no organismo.

"A presença de febre indica um processo de ativação anormal da imunidade", afirma o Dr. Luiz Fernando Degrecci Relvas, supervisor médico de Infectologia e Clínica Médica do Hospital Santa Marcelina.

Percepção também influencia a sensação de febre mais alta

Outro elemento que contribui para essa impressão é a falta de distrações durante a noite. Sem atividades ou estímulos externos, a percepção do desconforto causado pela febre tende a ficar mais evidente.

Também há um fator físico: como o corpo permanece mais parado durante o sono, a transpiração diminui. Isso faz com que o calor da pele não se dissipe da mesma forma que durante o dia, reforçando a sensação de que a febre está mais intensa à noite.

Quando a febre alta deve preocupar

Apesar da sensação de piora noturna, isso não significa necessariamente um agravamento real da doença. Em quadros comuns, como gripes e viroses, a febre só é considerada preocupante quando ultrapassa 39,5°C ou quando vem acompanhada de outros sinais de alerta, como suor excessivo e perda de peso involuntária.

Por outro lado, algumas doenças específicas apresentam padrões característicos de febre relacionados a horários determinados. É o caso da tuberculose, que costuma provocar elevação de temperatura majoritariamente no final da tarde e início da noite.

"Algumas infecções crônicas também fazem isso, assim como certos tipos de neoplasia, especialmente os linfomas", explica o Dr. Luiz Fernando Degrecci Relvas.

O que realmente importa observar

Segundo os especialistas, toda febre merece atenção, mas não é necessário monitorar a temperatura com termômetro durante toda a noite. O mais relevante é ficar atento a outros sintomas que possam surgir junto com a febre, como dificuldade para respirar, confusão mental, dores abdominais e vômitos.

"Importa menos o horário e mais o contexto clínico. Idade, doenças prévias, uso de medicamentos, viagens recentes, sintomas associados e duração dos sintomas pesam mais do que o ponteiro do relógio", conclui o Dr. Marco Aurélio Sáfadi.

Por: Redação Tá Sabendo MT (Redação Tá Sabendo MT, com informações de Superinteressante)

Compartilhar: