Estudo revisa dieta dos 'hobbits': hominídeos comiam carcaças deixadas por dragões-de-komodo
Pesquisa publicada na Science Advances questiona hipótese de que Homo floresiensis caçava grandes animais e dominava o fogo
Wikimedia Commons / Rama
Um estudo publicado em 3 de julho na revista científica Science Advances apresentou uma nova hipótese sobre o modo de vida dos Homo floresiensis, os hominídeos conhecidos popularmente como "hobbits": eles não caçavam grandes animais, mas se alimentavam dos restos de presas deixados por dragões-de-komodo, répteis que também habitavam a ilha indonésia de Flores.
Quem eram os hominídeos 'hobbits'
Os Homo floresiensis foram hominídeos que viveram na Terra há milhares de anos, embora o período exato entre seu surgimento e sua extinção ainda seja objeto de debate entre pesquisadores. Alguns fósseis atribuídos a essa espécie foram datados em cerca de 700 mil anos, enquanto outros apresentam idade estimada em aproximadamente 50 mil anos.
O que mais chama atenção nesses hominídeos é o porte físico reduzido: com cerca de um metro de altura, eles receberam o apelido carinhoso de "hobbit", em referência às criaturas da saga literária e cinematográfica O Senhor dos Anéis. A ilha de Flores, na Indonésia, é o único local onde vestígios dos "hobbits" já foram encontrados.
No passado, a descoberta de ossos de elefantes, restos de animais carbonizados e ferramentas de pedra em sítios arqueológicos levou cientistas a acreditar que o Homo floresiensis era capaz de caçar animais de grande porte e dominar o uso do fogo. Essa teoria, porém, sempre pareceu improvável a alguns pesquisadores, dado que o cérebro desses hominídeos tinha o tamanho aproximado de uma laranja.
A nova hipótese sobre a dieta dos hominídeos
A pesquisa recém-publicada sugere que os ossos de elefantes encontrados em sítios de Homo floresiensis não resultaram de caçadas realizadas pelos próprios hominídeos, mas sim da ação de dragões-de-komodo — répteis venenosos que podem atingir até três metros de comprimento e também viviam na ilha de Flores.
Segundo os autores do estudo, os dragões-de-komodo caçavam animais de grande porte, como o Stegodon florensis insularis, uma espécie de elefante-anão pré-histórico com cerca de 1,5 metro de altura (diferente dos elefantes que conhecemos atualmente). Após a caçada, os répteis deixavam para trás restos como ossos, pele e alguns órgãos. Essa carniça, segundo a hipótese apresentada, servia de alimento para os "hobbits".
Essa descoberta muda significativamente a forma como os cientistas enxergavam o nível de desenvolvimento tecnológico e comportamental desses hominídeos.
Como os cientistas testaram a hipótese
Para verificar essa teoria, os pesquisadores analisaram mais de 3 mil fragmentos de ossos provenientes do sítio arqueológico de Liang Bua, datados de aproximadamente 190 mil a 50 mil anos atrás. Ao examinar as marcas presentes nos ossos dos elefantes pré-históricos, a equipe percebeu que elas não se pareciam com cortes produzidos por ferramentas humanas nem apresentavam as perfurações típicas deixadas por lanças de pedra.
Para confirmar essa observação, os cientistas realizaram um experimento no Zoológico de Atlanta, nos Estados Unidos. Eles ofereceram uma cabra ao dragão-de-komodo Rinca e, em seguida, analisaram por meio de imagens tridimensionais as marcas deixadas nos ossos do animal. O resultado foi revelador: as mordidas produzidas por Rinca eram muito semelhantes às marcas encontradas nos fósseis dos antigos elefantes.
De fato, alguns cortes presentes nos fósseis parecem ter sido produzidos por ferramentas humanas, mas eles representavam a minoria dos casos. A maior parte das marcas era compatível com mordidas de dragões-de-komodo e aparecia justamente nas regiões mais carnudas do corpo dos elefantes, como ombros e quadris — partes que costumam ser consumidas primeiro pelos predadores. Já os cortes atribuídos a ferramentas humanas estavam concentrados em partes do esqueleto com menos carne, como as costelas.
Os pesquisadores chegaram a mapear o esqueleto completo do elefante pré-histórico, indicando em ilustrações quais ossos apresentavam mais marcas de corte, atribuídas a ferramentas, e quais tinham mais marcas de dentes, atribuídas às mordidas dos répteis.
Dúvidas sobre o domínio do fogo
O estudo também trouxe novidades sobre a suposta capacidade dos "hobbits" de controlar o fogo. As análises químicas realizadas pela equipe mostraram que, dos 3.155 fragmentos de ossos examinados, apenas um único fragmento apresentava sinais de carbonização — uma costela do Stegodon.
Esse osso carbonizado, no entanto, estava localizado próximo à camada geológica associada à presença de Homo sapiens no local e justaposto a vestígios arqueológicos mais recentes. Por esse motivo, os pesquisadores acreditam que o fragmento provavelmente ficou exposto na superfície da caverna durante um período posterior, já sob ocupação de Homo sapiens, que teriam sido responsáveis pela queima.
Ou seja, segundo a nova interpretação dos dados, os "hobbits" provavelmente não dominavam o uso do fogo, contrariando hipóteses anteriores sobre o desenvolvimento tecnológico dessa espécie.
Habilidades mais simples, mas eficientes
Apesar de indicar habilidades menos sofisticadas do que se imaginava anteriormente, o estudo sugere que os Homo floresiensis encontraram uma forma eficiente de sobreviver em um ambiente insular repleto de animais de grande porte competindo por alimento.
Estudos anteriores apontavam que os Homo floresiensis descendiam dos Homo erectus, parentes evolutivos que já dominavam o uso do fogo. A nova hipótese apresentada na Science Advances, porém, aponta para uma linhagem ancestral diferente, formada por hominídeos que ainda não possuíam essa habilidade tecnológica no momento em que se estabeleceram na ilha de Flores.
Por: Redação Tá Sabendo MT (Redação Tá Sabendo MT, com informações de Superinteressante)