Japão intensifica combate a ataques de ursos com robôs-lobo e monitoramento por IA
País registrou 13 mortes e mais de 220 feridos em um ano por encontros com os animais, que passaram a invadir áreas urbanas em busca de alimento
Wikimedia Commons / Various
O Japão tem enfrentado um crescimento preocupante no número de incidentes envolvendo ursos e seres humanos em seu território. Entre abril de 2025 e março de 2026, foram registradas 13 mortes e mais de 220 pessoas feridas pelos animais em todo o país, segundo dados oficiais citados pela CNN.
O salto é expressivo quando comparado ao período imediatamente anterior, quando haviam sido contabilizados três mortos e 82 feridos em decorrência de ataques de ursos. Para especialistas, o aumento reflete uma mudança no comportamento dessas espécies, que passaram a se relacionar de forma diferente com o ambiente e com a busca por alimento.
Mudanças climáticas alteram comportamento dos ursos
De acordo com pesquisadores, as alterações climáticas têm feito com que frutas, vegetais e nozes que compõem a dieta natural dos ursos passem a amadurecer mais tarde durante o outono no Hemisfério Norte. Com menos alimento disponível na floresta nesse período, os animais passaram a buscar comida no lixo produzido pelos humanos, aproximando-se cada vez mais de áreas residenciais.
Liam Adcock, pesquisador de vida selvagem do Picchio Wildlife Research Center, localizado em Nagano, explicou à CNN que o aumento nos encontros entre animais selvagens e humanos também está ligado à expansão urbana. Segundo ele, as terras agrícolas que historicamente funcionavam como uma espécie de fronteira natural entre a floresta e as cidades simplesmente deixaram de existir com o crescimento dos centros urbanos, o que reduziu a distância entre o habitat dos ursos e as áreas habitadas.
Atualmente, estima-se que existam cerca de 57 mil ursos vivendo em território japonês. Somente em 2025, foram registrados mais de 50 mil avistamentos desses animais em todo o país, um volume que evidencia a dimensão do fenômeno e a proximidade crescente entre os ursos e as populações urbanas e rurais.
Governo classifica situação como ameaça à segurança pública
Diante do avanço dos casos, o governo japonês passou a classificar os encontros com ursos como uma ameaça grave à segurança e à paz pública, o que resultou na flexibilização das regras para a caça desses animais. As autoridades elaboraram um plano com o objetivo de reduzir a população de ursos para um patamar entre 62% e 67% da atual até o ano de 2030, por meio de abates controlados.
A adoção dessa medida mais drástica se deve, em parte, à perda de eficácia de métodos tradicionalmente usados para afastar os animais. Os fogos de artifício, por exemplo, que durante anos foram utilizados para espantar os ursos de áreas residenciais e agrícolas, já não produzem o mesmo efeito de intimidação de antes.
Tecnologia entra em cena: IA, mapas de incidentes e robôs-lobo
Para reforçar o monitoramento, algumas regiões do Japão passaram a equipar áreas florestais com sistemas de inteligência artificial capazes de detectar movimento 24 horas por dia. A tecnologia alerta moradores automaticamente caso um urso invada uma região residencial, permitindo que as autoridades locais tomem medidas rápidas para afastar o animal de possíveis áreas de risco para a população. O sistema foi desenvolvido pela Hokuriku Electric Power Company em parceria com a empresa de sistemas de comunicação Hokutsu.
Outra iniciativa tecnológica surgiu após um ataque fatal de urso registrado na cidade de Hokkaido. Movido pelo episódio, o engenheiro Danyel Koca criou o Kumamap, uma ferramenta de rastreamento de incidentes com ursos que reúne dados fornecidos por governos locais, notícias veiculadas nacionalmente e relatos de comunidades, todos submetidos a processo de verificação.
Entre as soluções mais chamativas está o Monster Wolf, um robô animatrônico movido a energia solar que reproduz a aparência de um lobo japonês, espécie hoje extinta que, no passado, ajudava a manter os ursos afastados das áreas habitadas. O equipamento é vendido por cerca de US$ 4 mil e tem sido utilizado principalmente por produtores rurais como forma de proteção contra ataques em lavouras agrícolas.
"As vendas dobraram desde que os encontros com os animais se tornaram algo frequente no Japão", afirmou Motohiro Miyasaka, diretor-gerente da Wolf Kamui Co., empresa responsável pela fabricação do robô.
A companhia já trabalha no desenvolvimento de uma versão menor do equipamento, o que indica a expectativa de expansão da demanda por esse tipo de solução tecnológica em meio ao aumento contínuo dos casos de conflito entre humanos e ursos no país.
Defensores de métodos tradicionais resistem à onda tecnológica
Apesar do avanço das soluções baseadas em tecnologia, ainda existe um movimento que defende o uso de técnicas mais tradicionais para conter os ursos, como o emprego de cães de caça treinados. Segundo o pesquisador Liam Adcock, o Japão historicamente criava cães-de-urso-da-carélia, raça de origem finlandesa, justamente para afastar os animais de áreas residenciais por meio de latidos, sem causar ferimentos aos ursos.
O cenário atual mostra que o Japão combina diferentes estratégias — desde o abate controlado autorizado pelo governo até soluções de inteligência artificial e robótica — na tentativa de reduzir os riscos à população, ao mesmo tempo em que especialistas apontam as mudanças climáticas e a expansão urbana como fatores estruturais por trás do aumento dos encontros entre humanos e ursos no país.
Por: Redação Tá Sabendo MT (Redação Tá Sabendo MT, com informações de CNN Brasil)