Agronegócio

Recuperações judiciais no agronegócio atingem recorde e Mato Grosso lidera pedidos no país

Levantamento da Serasa Experian mostra alta de 22% nos processos no primeiro trimestre de 2026; especialista explica causas e cuidados que produtores devem ter antes de recorrer ao instituto

Recuperações judiciais no agronegócio atingem recorde e Mato Grosso lidera pedidos no país

Pexels / Marcio Ribeiro

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O agronegócio brasileiro registrou um recorde histórico de pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026. De acordo com levantamento da Serasa Experian, foram protocolados 474 pedidos no setor entre janeiro e março daquele ano, o que representa um aumento de aproximadamente 22% em comparação ao mesmo período do ano anterior. Mato Grosso apareceu na liderança nacional, concentrando 135 solicitações, o maior número entre todos os estados brasileiros.

O crescimento expressivo dos pedidos está diretamente relacionado a um cenário de crédito mais restritivo, aliado à manutenção de custos de produção elevados e ao aumento do nível de alavancagem dos produtores rurais. Essa combinação de fatores tem comprometido de forma significativa o fluxo de caixa das propriedades agrícolas em diversas regiões do país.

Alta não é isolada e reflete tendência nacional

O movimento de aumento nas recuperações judiciais não se restringe apenas ao setor agropecuário. Segundo os dados apresentados, o total de recuperações judiciais na economia brasileira como um todo cresceu cerca de 66% entre o segundo trimestre de 2023 e o segundo trimestre de 2026. Esse crescimento geral, no entanto, foi impulsionado principalmente pelo agronegócio, em um contexto de juros elevados e acesso restrito ao crédito.

A situação levanta um questionamento importante: por que um setor que continua produzindo fortemente enfrenta uma crise financeira e jurídica tão acentuada? Segundo a advogada Samária Zagretti, sócia da LPADV e supervisora da carteira de Processos Estratégicos do escritório, a resposta está na fragilidade financeira que se instalou no campo, mesmo com a produção agrícola mantendo-se robusta.

As causas estruturais da crise no campo

Zagretti aponta que os motivos do aumento nos pedidos de recuperação judicial são estruturais, resultando da combinação de fatores macroeconômicos e microeconômicos que afetam diretamente a saúde financeira dos produtores rurais.

Entre os principais fatores estão os juros altos e o encarecimento do crédito rural, que dificultam a rolagem de dívidas existentes e tornam inviável a reestruturação extrajudicial das obrigações. Soma-se a isso a restrição na concessão de novos financiamentos, situação agravada pela percepção de risco que os bancos passaram a adotar em relação ao setor.

Outro elemento relevante é a compressão das margens de lucro dos produtores, provocada pela queda nos preços das commodities agrícolas combinada com a alta nos custos dos insumos utilizados na produção. Além disso, quebras de safra e eventos climáticos adversos têm fragilizado ainda mais o fluxo de caixa das propriedades e comprometido o cumprimento das obrigações relacionadas às cédulas de crédito rural.

"Nesse contexto, a recuperação judicial surge como instrumento legítimo e eficiente, desde que bem utilizada", afirma Samária Zagretti, advogada e sócia da LPADV.

Diagnóstico honesto é essencial antes de recorrer ao instituto

Segundo a especialista, a decisão de optar pela recuperação judicial exige, antes de qualquer coisa, um diagnóstico honesto sobre a viabilidade econômica do empreendimento rural. O instituto, segundo ela, não deve ser utilizado para postergar um desfecho inevitável, mas sim para reorganizar aquilo que ainda pode ser recuperado financeiramente.

A análise necessária deve levar em conta a capacidade de geração de caixa futura da propriedade, além da compatibilidade do plano de recuperação judicial com a sazonalidade própria da atividade agropecuária. Também é fundamental avaliar a real possibilidade de cumprimento das obrigações que serão reestruturadas ao longo do processo.

Zagretti destaca que o plano de recuperação deve necessariamente observar as peculiaridades do ciclo produtivo rural, que envolve as fases de safra, entressafra e comercialização. Caso contrário, o plano corre o risco de se tornar inexequível na prática, mesmo que esteja formalmente correto sob o ponto de vista jurídico.

Recomendação de análise criteriosa antes do ajuizamento

Antes de decidir pelo ajuizamento de uma ação de recuperação judicial, a advogada recomenda que os produtores rurais realizem uma análise criteriosa de todo o endividamento existente. Essa avaliação prévia permite verificar a possibilidade de renegociação extrajudicial das dívidas, evitando o recurso imediato ao Judiciário.

Além disso, a análise detalhada possibilita identificar precocemente cláusulas contratuais onerosas e riscos de inadimplemento que possam comprometer ainda mais a situação financeira da propriedade. Segundo Zagretti, essa avaliação orienta de forma mais adequada a decisão do produtor rural.

"Essa avaliação orienta melhor a decisão do produtor, permitindo que a recuperação judicial seja empregada no momento e na medida adequados como ferramenta de reorganização, e não como último recurso desesperado", explica a advogada.

Responsabilidade redobrada para preservar credibilidade do setor

A especialista defende que o momento atual exige responsabilidade redobrada por parte de todos os envolvidos no processo de recuperação judicial no agronegócio. Segundo ela, é fundamental separar claramente o uso legítimo do instituto jurídico do que seria um inadimplemento planejado por parte de alguns produtores.

"O momento, portanto, é de responsabilidade redobrada, devendo-se separar o uso legítimo da recuperação judicial, do inadimplemento planejado, para preservar a credibilidade do agronegócio e proporcionar a segurança jurídica de todos os envolvidos", conclui Samária Zagretti.

A análise da advogada reforça que, apesar do cenário desafiador enfrentado pelo setor produtivo, a recuperação judicial deve ser tratada como ferramenta estratégica de reorganização financeira, e não como solução automática para qualquer dificuldade enfrentada pelos produtores rurais em meio ao atual ambiente de crédito restrito e custos elevados de produção.

Por: Redação Tá Sabendo MT (Redação Tá Sabendo MT, com informações de Notícias Agrícolas)

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