Açúcar fecha sexta-feira em direções opostas nas bolsas de Nova Iorque e Londres
Mercado segue pressionado pela expectativa de menor necessidade de importação da Índia, enquanto oferta global mais apertada limita as perdas
Wikimedia Commons / Government of India
Os preços do açúcar encerraram a sexta-feira, dia 4 de setembro de 2026, em direções opostas nas principais bolsas internacionais, mantendo a pressão observada nas duas sessões anteriores. O mercado permanece atento às medidas adotadas pela Índia para ampliar a disponibilidade interna do produto, iniciativa que pode reduzir a necessidade de importações pelo país asiático, segundo reportagem assinada por Andréia Marques, do Notícias Agrícolas.
Em Nova Iorque, o contrato com vencimento em outubro fechou estável, cotado a 18,07 cents por libra-peso. Já em Londres, o contrato de outubro recuou 350 pontos, encerrando o pregão a US$ 523,10 por tonelada.
Medida indiana pressiona cotações
A pressão sobre os preços internacionais ganhou força ao longo desta semana, depois que o governo da Índia decidiu reduzir o limite de estoque permitido para revendedores de açúcar, que passou de 400 para 200 toneladas. A nova regra entra em vigor em 15 de setembro e permanecerá válida até 20 de novembro, com o objetivo declarado de conter a especulação e aumentar a disponibilidade de açúcar no mercado interno indiano.
Com mais produto disponível dentro do próprio país, cresce a expectativa de que a necessidade de importação por parte da Índia seja menor do que a inicialmente prevista pelos analistas. Essa possibilidade de demanda externa mais fraca por parte do gigante asiático é um dos principais fatores que vêm pressionando as cotações internacionais nos últimos dias.
A Índia é o segundo maior produtor mundial de açúcar e, tradicionalmente, também figura entre os países exportadores do produto. Em 20 de agosto, o governo indiano havia autorizado a importação de até 1 milhão de toneladas de açúcar bruto, com isenção de impostos, medida válida até 31 de outubro. Na ocasião, a decisão refletia preocupação com o abastecimento interno do país.
Oferta global mais apertada sustenta preços
Apesar da pressão recente provocada pelas medidas indianas, o mercado internacional ainda encontra sustentação nas projeções de uma oferta mundial mais restrita para a safra 2026/27. Na terça-feira desta semana, a Organização Internacional do Açúcar (ISO) passou a projetar um déficit global de 200 mil toneladas para a temporada 2026/27, revisão que contrasta com o superávit de 1,1 milhão de toneladas estimado anteriormente para 2025/26.
De acordo com a ISO, a produção mundial de açúcar deve somar 180,1 milhões de toneladas em 2026/27, o que representa queda de 1% em relação à temporada anterior. O cenário traçado pela organização leva em conta, entre outros fatores, os possíveis impactos do fenômeno El Niño sobre as principais regiões produtoras do mundo.
Outras consultorias especializadas também apontam para um mercado global mais apertado nos próximos meses. A Green Pool estima déficit de 3,2 milhões de toneladas para 2026/27, enquanto a StoneX projeta saldo negativo de 1,7 milhão de toneladas na mesma safra. Já a Covrig Analytics trabalha com uma previsão de déficit de 300 mil toneladas.
Produção cai na Europa e no Brasil
Na Europa, o cenário de produção também é de recuo. O Observatório do Mercado de Açúcar da União Europeia estima queda de 19% na produção do bloco em 2026/27, para 13,4 milhões de toneladas. Dados divulgados pela S&P Global Energy, por sua vez, apontam produção de açúcar na União Europeia e no Reino Unido em 14,98 milhões de toneladas, o menor volume em 11 anos, reflexo dos efeitos da seca e das temperaturas elevadas registradas na região.
No Brasil, maior produtor mundial de açúcar, a queda na produção também contribui para o cenário de oferta mais restrita em nível global. A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) informou em agosto que a produção de açúcar no Centro-Sul do país recuou 26,3% em junho, totalizando 3,903 milhões de toneladas no período.
Além do volume produzido, a relação entre a fabricação de açúcar e de etanol segue sendo um fator relevante para o mercado. Quando as condições de preço favorecem o etanol, as usinas brasileiras tendem a direcionar uma parcela maior da cana-de-açúcar processada para a produção do biocombustível, o que reduz a quantidade de matéria-prima disponível para a fabricação de açúcar.
Índia enfrenta chuvas de monção abaixo da média
O clima segue como outro ponto de atenção para a oferta mundial de açúcar. O Departamento Meteorológico da Índia informou nesta sexta-feira que as chuvas de monção acumuladas entre junho e setembro estavam 13% abaixo da média histórica até o dia 4 de setembro.
Apesar da melhora em relação ao déficit de 42% registrado até 30 de junho, o Ministério de Ciências da Terra da Índia alertou que a atual temporada de monções pode se confirmar como a mais fraca dos últimos 11 anos. As chuvas de monção são fundamentais para a produção agrícola indiana, e uma temporada mais fraca pode afetar diretamente a disponibilidade de cana-de-açúcar no país e, por consequência, a produção de açúcar.
O fenômeno El Niño também permanece como fator de atenção para o setor. A possibilidade de redução das chuvas no Brasil, na Índia e na Tailândia — todos importantes regiões produtoras de açúcar no mundo — aumenta as preocupações com a oferta global nas próximas safras.
Dessa forma, enquanto as medidas adotadas pela Índia pressionam as cotações no curto prazo, as perspectivas de menor produção em importantes países produtores e o risco climático seguem mantendo o cenário de oferta global como um dos principais pontos de atenção para os agentes que operam no mercado internacional de açúcar.
Por: Redação Tá Sabendo MT (Redação Tá Sabendo MT, com informações de Notícias Agrícolas)