Importações de fertilizantes recuam 43% em agosto, mas mercado ainda não enfrenta desabastecimento
Dados da Secex mostram queda de 5,22 milhões para 2,97 milhões de toneladas na comparação anual; oferta de nitrogenados está mais apertada e safrinha de milho tem 55% das compras em aberto
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As importações brasileiras de fertilizantes encerraram agosto de 2026 com forte retração na comparação com o mesmo mês do ano anterior. Dados divulgados pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex) mostram que o Brasil recebeu cerca de 2,97 milhões de toneladas de adubos ou fertilizantes químicos no período, volume 43,2% menor que as 5,22 milhões de toneladas contabilizadas em agosto de 2025. Apesar da queda expressiva, especialistas do setor afirmam que o mercado ainda não enfrenta um cenário de falta generalizada de produto.
A redução em valores financeiros foi proporcionalmente menor que a queda em volume. As importações de fertilizantes movimentaram aproximadamente US$ 1,20 bilhão em agosto, recuo de 35,9% frente ao mesmo mês de 2025. Já o preço médio dos produtos importados ficou 12,8% acima do praticado um ano antes, o que ajuda a explicar a diferença entre a retração no volume físico e a queda nos valores movimentados.
Analista descarta falta de produto, mas aponta oferta mais apertada
O analista de fertilizantes da Agrinvest, Jeferson Souza, avalia que a queda no volume importado não deve ser interpretada isoladamente como sinal de escassez. Segundo ele, é preciso considerar em conjunto o comportamento da produção nacional e da demanda por insumos no país.
Souza explica que, embora as importações estejam menores neste ano, a produção nacional de fertilizantes cresceu discretamente, enquanto a demanda do mercado brasileiro está mais fraca em função do cenário econômico e agrícola atual.
"A importação nossa, esse ano, é menor, a produção nacional cresceu um pouquinho, só que a demanda está mais retraída por conta do ambiente que nós estamos vivendo", explicou Jeferson Souza, analista de fertilizantes da Agrinvest.
Nitrogenados exigem atenção redobrada
Entre as diferentes categorias de fertilizantes, os nitrogenados são os que mais preocupam o mercado no momento. Souza destaca que a oferta desses produtos no Brasil está mais apertada do que a registrada no ano passado, o que reduz a margem de segurança do país diante de eventuais novos problemas de abastecimento externo.
O analista chama atenção para a elevada dependência brasileira das importações de ureia, insumo nitrogenado amplamente utilizado na adubação de diversas culturas. De acordo com ele, cerca de 40% da ureia importada pelo Brasil em 2025 teve origem em países do Oriente Médio. Neste ano de 2026, no entanto, as importações brasileiras de ureia provenientes daquela região recuaram cerca de 50%.
Para Souza, essa retração não indica que o produto esteja faltando atualmente no mercado brasileiro, mas reduz a folga disponível caso surjam novas dificuldades de oferta internacional.
"Não temos um excesso de oferta hoje de nitrogenado no Brasil, porém eu também não vejo falta", afirmou o analista da Agrinvest.
Compras avançadas para a soja, mas safrinha de milho ainda exposta
O estágio das compras de fertilizantes ajuda a explicar por que o cenário atual não é uniforme entre as diferentes culturas agrícolas do país. Para a safra 2026/27 de soja, a Agrinvest estima que aproximadamente 90% das necessidades de fertilizantes já tenham sido adquiridas pelos produtores brasileiros, embora existam diferenças regionais relevantes. No Rio Grande do Sul, estado em que o plantio da oleaginosa ocorre mais tarde no calendário, o percentual de compras concluídas ainda é menor do que a média nacional.
Já a situação da segunda safra de milho, referente ao ciclo de 2027, é bastante diferente. Até o início de setembro, apenas 45% das compras de fertilizantes para a safrinha estavam fechadas, o que deixa 55% das necessidades do cereal ainda em aberto — uma parcela considerável que torna essa cultura mais suscetível a eventuais mudanças no mercado internacional de insumos.
Segundo Souza, a relação de troca entre o milho e os fertilizantes está atualmente dentro dos padrões históricos, e a queda dos preços dos insumos observada desde abril criou oportunidades para novas aquisições por parte dos produtores. Ainda assim, o produtor de milho segue mais cauteloso na hora de fechar negócios, diante das incertezas relacionadas a crédito rural, condições climáticas e janela de plantio.
Tensão geopolítica no Oriente Médio preocupa mercado
O analista da Agrinvest chama atenção especialmente para a instabilidade geopolítica envolvendo Estados Unidos e Irã e seus possíveis efeitos sobre a disponibilidade e os preços dos fertilizantes originados no Oriente Médio. Como o Brasil depende fortemente das importações de nitrogenados, eventuais interrupções no fornecimento precisam ser avaliadas também levando em conta o tempo necessário para que o produto seja comprado, embarcado e transportado até as regiões produtoras.
"Cada dia que passa, minha janela vai se encurtando. E o Brasil é um país importador. Então nós temos que levar em consideração isso também", destacou Jeferson Souza.
Por outro lado, uma possível ampliação das exportações chinesas de ureia pode aliviar parte da restrição global de oferta observada neste ano. Souza destaca que as vendas chinesas já contribuíram para equilibrar o mercado ao longo de 2026 e que uma nova rodada de disponibilização do produto pela China poderá influenciar os preços internacionais nas próximas semanas.
O que esperar daqui para frente
O fechamento de agosto mostra, portanto, uma redução importante nas entradas de fertilizantes no Brasil em relação ao ano anterior, tanto em volume quanto em valor. No entanto, o impacto efetivo para o produtor rural depende do tipo de produto e do estágio de compra de cada safra específica.
Enquanto o plantio da soja avança com a maior parte das necessidades de fertilizantes já contratadas pelos produtores, a safrinha de milho permanece mais exposta aos próximos movimentos do mercado internacional de ureia, especialmente diante do cenário de tensão geopolítica no Oriente Médio e da possível resposta da China com novas exportações do insumo.
Por: Redação Tá Sabendo MT (Redação Tá Sabendo MT, com informações de Notícias Agrícolas)