Eleitores de religiões afro-brasileiras dizem se sentir invisíveis na campanha eleitoral de 2026
Número de adeptos de religiões de matriz africana triplicou no país segundo o IBGE, mas segmento ainda enfrenta baixa representatividade política e intolerância religiosa
Tomaz Silva/Agência Brasil
Brasileiros que professam religiões de matriz africana e afro-brasileira afirmam não se sentir representados pelas campanhas políticas de 2026, segundo avaliação de praticantes, líderes religiosos e pesquisadores ouvidos pela Agência Brasil. O relato ocorre em um cenário no qual o número de adeptos dessas religiões triplicou no país entre 2010 e 2022, de acordo com o último censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atingindo a marca de 1,8 milhão de pessoas.
Apesar do crescimento expressivo, o grupo continua à margem das disputas eleitorais, ao contrário do que ocorre com o eleitorado cristão, que costuma ser alvo de intensa mobilização por parte de candidatos durante os pleitos.
Preconceito histórico explica exclusão, dizem especialistas
Para a advogada e umbandista Lívia dos Santos, a falta de interesse das campanhas políticas em relação aos praticantes de religiões afro e a baixa representatividade desse segmento na política refletem um quadro mais amplo de intolerância religiosa enraizado na sociedade brasileira.
"É muito difícil a gente, que é de religião de matriz africana, se ver representado pelos políticos", afirma Lívia dos Santos, advogada e umbandista.
"A gente tá falando, em uma última análise, de uma sociedade que não se permite conhecer essas religiões, justamente por todo o histórico de marginalização, criminalização dos povos que sempre cultuaram o orixá", analisa a advogada.
Segundo ela, o combate à intolerância religiosa é hoje uma das pautas mais relevantes para o fortalecimento da democracia no país. A legislação brasileira já prevê punição para esse tipo de discriminação: o Artigo 208 do Código Penal protege o sentimento e a liberdade religiosa e estabelece pena de um a três anos de reclusão para quem comete crime de discriminação religiosa.
Minoria numérica não deveria significar exclusão política
Os praticantes de religiões de matriz africana representam uma fatia menor da população brasileira se comparados a católicos e evangélicos, que juntos somam cerca de 80% dos habitantes do país. Ainda assim, pesquisadores defendem que o tamanho reduzido do grupo não justifica o desinteresse das campanhas eleitorais.
Essa é a avaliação do pai de santo e pesquisador do Grupo de Pesquisas sobre Povos de Terreiro da Universidade Federal Fluminense (UFF), Leonardo Vieira, para quem ainda persistem setores da política que enxergam os povos de terreiro como inferiores.
"Há nichos da política que ainda concebem os povos de terreiro como inferiores", afirma Leonardo Vieira, pesquisador da UFF.
De acordo com Vieira, prevalece entre parte da classe política uma concepção equivocada de que os povos de terreiro não teriam capacidade de organização política, quando, na realidade, a dimensão política já faz parte da própria existência dessas comunidades religiosas.
"Essa organização política começa dentro dos terreiros nas suas relações comunitárias e coletivas de organização, economia, de saúde, de educação, de tecnologia, e que é uma forma de fazer política diferente", explica o pesquisador.
O especialista destaca ainda que os candidatos capazes de conquistar o apoio e os votos desse eleitorado costumam ser justamente aqueles que pertencem às religiões de matriz afro ou que mantêm proximidade com o segmento.
Risco de violência dificulta mobilização em campanhas
Durante períodos eleitorais, é comum que grandes eventos religiosos sejam aproveitados por candidatos como palco de campanha e incorporados às respectivas agendas políticas. No entanto, no caso dos povos de terreiro, organizar esse tipo de mobilização não é uma tarefa simples, segundo os pesquisadores consultados pela reportagem.
Isso porque, no Brasil, a intolerância religiosa ainda representa um risco concreto de sofrer violência para quem se assume publicamente como praticante de religiões afro-brasileiras, o que dificulta a exposição do grupo em atos e eventos de caráter político-eleitoral.
Denúncias ao Disque 100 revelam extensão do problema
Os números do Disque Direitos Humanos (Disque 100) reforçam a urgência de se enfrentar a intolerância religiosa no país. Entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, o canal registrou 2.774 denúncias relacionadas a casos de discriminação religiosa.
O serviço, mantido pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, funciona ininterruptamente, 24 horas por dia, incluindo sábados, domingos e feriados, com atendimento gratuito e imediato à população.
As denúncias de violações de direitos humanos recebidas pelo canal, incluindo aquelas relativas à intolerância religiosa, são registradas e analisadas pela equipe do Disque 100 e, em seguida, encaminhadas aos órgãos competentes para apuração e providências. Em casos de emergência, a orientação é acionar imediatamente a Polícia Militar pelo telefone 190.
Por: Redação Tá Sabendo MT (Redação Tá Sabendo MT, com informações de Agência Brasil)