Acordo dos EUA para controlar petróleo da Venezuela gera preocupação no setor
Concessão de 100 anos a empresa ligada a empresário venezuelano investigado levanta dúvidas entre petrolíferas que avaliam investir no país
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Um acordo sem precedentes que garante aos Estados Unidos acesso a um quinto das reservas de petróleo da Venezuela está gerando dúvidas e hesitações entre empresas petrolíferas que avaliam possíveis investimentos no país, segundo fontes a par da situação ouvidas pela agência Reuters. O centro da desconfiança é o papel de destaque reservado a um empresário venezuelano que já foi alvo de investigações internacionais.
Um comunicado divulgado pela Casa Branca na noite de segunda-feira (31) detalhou os termos do acordo, segundo o qual a empresa petrolífera privada NABEP (North American Blue Energy Partners) receberá uma concessão de 100 anos para operar 17 campos de petróleo na Venezuela. Esses campos reúnem, juntos, cerca de 65 bilhões de barris de reservas.
Pelo acordo, os Estados Unidos terão participação acionária de 35% na empresa controladora da concessão, além de garantia de 20% da produção de petróleo extraída. O governo americano ainda terá direito de preferência para comprar toda a produção restante gerada pelos campos.
O empresário no centro da polêmica
A NABEP é controlada pelo empresário venezuelano Alejandro Betancourt, que já foi investigado por autoridades dos Estados Unidos e da Europa em razão de negócios anteriores mantidos com o governo da Venezuela. Betancourt nunca chegou a ser formalmente indiciado nesses processos e sempre negou as acusações que pesam contra ele.
A proximidade de Betancourt com o acordo é justamente o que preocupa parte do mercado. Segundo uma fonte envolvida nos preparativos para um evento em que se espera que os contratos de energia sejam assinados ainda nesta semana, grandes companhias estrangeiras têm receio de se associar ao nome do empresário.
"As grandes petrolíferas e as grandes empresas estrangeiras que estão negociando a migração de contratos querem ter certeza de que não se sentarão à mesma mesa que Betancourt", disse uma pessoa envolvida nos preparativos do evento de assinatura dos contratos.
A NABEP, que atualmente produz cerca de 170 mil barris de petróleo por dia, não respondeu de imediato a pedido de comentário sobre o caso feito pela reportagem da Reuters.
Depois que a Casa Branca divulgou os detalhes do acordo, a empresa enviou um comunicado por e-mail em nome de Betancourt, no qual o empresário afirmou que a transação liberaria o potencial petrolífero venezuelano para grande benefício tanto dos venezuelanos quanto dos americanos.
"O Sr. Betancourt atua no setor petrolífero venezuelano há mais de 15 anos, com um histórico consistente de sucesso, mais recentemente à frente da NABEP, onde aumentou rapidamente a produção da empresa", informou a nota da companhia, que também estabeleceu como meta de curto prazo elevar a produção para mais de 1 milhão de barris por dia.
A resistência das gigantes do setor
O episódio expõe a difícil batalha enfrentada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para convencer as principais petrolíferas americanas — em especial a ExxonMobil e a ConocoPhillips — a investir na Venezuela e expandir rapidamente a produção de petróleo do país.
Ambas as empresas deixaram o território venezuelano em 2007, após a nacionalização de seus ativos promovida pelo governo do então presidente Hugo Chávez. Desde então, as duas companhias vêm afirmando repetidamente que suas exigências de segurança jurídica e de respeito aos contratos ainda não foram atendidas para que pudessem retornar a operar no país.
Na segunda-feira, Trump disse a jornalistas que a Exxon estaria entre as empresas que iriam para a Venezuela, mas não deu mais detalhes sobre a informação. A ExxonMobil optou por não comentar a declaração do presidente americano quando questionada sobre o assunto.
Já uma porta-voz da ConocoPhillips remeteu a reportagem a uma declaração anterior da companhia, na qual se afirmava que qualquer decisão de investimento seria orientada por uma série de fatores, incluindo estabilidade política e respeito ao Estado de Direito no país.
Risco de concorrência com o próprio governo americano
A estrutura planejada para o acordo e os enormes ativos que a NABEP poderia acumular no país, que é membro da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), estão gerando um temor adicional entre as fontes ouvidas: o de que as petrolíferas americanas passem a enfrentar concorrência do próprio governo dos Estados Unidos dentro da Venezuela.
Esse cenário poderia se transformar em mais um obstáculo à meta de Trump de aumentar a produção e as exportações de petróleo venezuelano como forma de contribuir para as reservas estratégicas americanas, avaliou Alejo Czerwonko, diretor de investimentos em mercados emergentes do banco suíço UBS.
"Seria necessário um investimento especial e o know-how de empresas como a Exxon e a ConocoPhillips. Como atrair essas empresas para o país?", questionou Alejo Czerwonko, do UBS.
"Ainda há muitas incógnitas e elementos confusos", afirmou Radhika Bansal, vice-presidente sênior da consultoria Rystad Energy, em entrevista concedida na manhã de segunda-feira, antes de a Casa Branca divulgar os detalhes completos do acordo com a NABEP.
Outros contratos avançam paralelamente
Apesar das incertezas em torno do acordo com a NABEP, outras negociações no setor petrolífero venezuelano já avançam. A Chevron, maior produtora de petróleo dos Estados Unidos na Venezuela e a única grande companhia americana que nunca deixou o país, está entre as empresas que devem fechar acordos para novos projetos de energia ainda esta semana.
Também devem assinar contratos nesse mesmo período a italiana Eni, a indiana ONGC, a colombiana GeoPark e a norte-americana GE Vernova, conforme apurou a Reuters. Esses acordos correm de forma independente da iniciativa do governo americano com a NABEP.
Outras movimentações recentes no setor incluem licenças concedidas pelo governo venezuelano à britânica Shell e à também britânica BP para grandes projetos de gás em águas offshore. A maioria dessas empresas, e de outras que fazem propostas semelhantes, vem negociando desde o início do ano a migração de seus contratos já existentes na Venezuela para novos termos, autorizados por uma ampla reforma no setor energético do país, que também busca incentivar a expansão de novos projetos.
A Chevron, por sua vez, está tentando incorporar ao seu portfólio pelo menos um novo bloco de exploração no vasto Cinturão do Orinoco, uma das maiores reservas de petróleo pesado do mundo. A companhia também pretende negociar uma área na região de Monagas Norte, que poderia se tornar fonte de diluentes usados em sua produção de petróleo extrapesado na Venezuela.
Por: Redação Tá Sabendo MT (Redação Tá Sabendo MT, com informações de CNN Brasil)