Economia

Dívida pública dos EUA ultrapassa US$ 40 trilhões apesar de promessas de austeridade de Trump

Em 19 meses de segundo mandato, gastos federais cresceram, guerra contra o Irã pesa nas contas e custo da dívida sobe com juros mais altos

Dívida pública dos EUA ultrapassa US$ 40 trilhões apesar de promessas de austeridade de Trump

Wikimedia Commons / Daniel Torok

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WASHINGTON, 2 de setembro (Reuters) - Donald Trump retornou à Casa Branca prometendo reorganizar as finanças dos Estados Unidos, reduzir drasticamente o tamanho do governo federal, encerrar as onerosas 'guerras intermináveis' e impulsionar o crescimento econômico para conter os déficits públicos. No entanto, nos primeiros 19 meses de seu segundo mandato, a dívida nacional americana ultrapassou a marca de US$ 40 trilhões, contrariando as promessas de austeridade fiscal feitas pelo republicano.

Gastos crescem em vez de diminuir

Em vez de recuar, os gastos federais dos Estados Unidos aumentaram durante o período. A guerra contra o Irã, que já se arrasta por seis meses, transformou-se em um impasse de alto custo para os cofres públicos. Ao mesmo tempo, o custo do serviço da dívida americana subiu, à medida que os rendimentos de alguns títulos do Tesouro dos EUA atingiram os níveis mais altos em quase duas décadas.

Segundo especialistas em orçamento público, esse cenário aponta para uma crise fiscal iminente, que deve obrigar o Congresso e um futuro presidente a adotar medidas impopulares, como aumento de impostos ou cortes na rede de proteção social — incluindo, potencialmente, a Previdência Social americana.

"Não há nenhum cenário em que se possa analisar o histórico do presidente Trump, tanto neste mandato quanto no anterior, e declará-lo um sucesso fiscal", afirmou Maya MacGuineas, presidente do Comitê para um Orçamento Federal Responsável, think tank centrista de Washington.
"A maneira como chegamos a este ponto não foi culpa dele, mas o fato de estarmos nesta situação e de os parlamentares não terem feito nada para melhorá-la é culpa de todos eles, com o presidente claramente ocupando um papel central e definindo a agenda", completou MacGuineas.

Marco de US$ 40 trilhões chega perto das eleições de meio de mandato

A dívida superou os US$ 40 trilhões pouco antes das eleições intermediárias de novembro nos Estados Unidos, que vão definir se os republicanos manterão o controle do Congresso durante a segunda metade do atual e último mandato de Trump.

Ainda que os eleitores não estejam necessariamente atentos ao tema até que os problemas fiscais do país se traduzam em cortes de benefícios ou aumentos de impostos, as consequências já afetam o dia a dia da população por meio de taxas de juros hipotecários mais altas — que acompanham os rendimentos dos títulos públicos — e de uma inflação que supera os reajustes salariais.

Cortes de impostos e nova legislação ampliaram a dívida

Ao longo de seus dois mandatos, Trump elevou os gastos públicos. Os cortes de impostos promovidos em seu primeiro governo adicionaram US$ 8,4 trilhões à dívida nacional, segundo levantamento do Comitê para um Orçamento Federal Responsável. Já a lei tributária e de imigração aprovada em seu segundo mandato acrescentou outros US$ 4,7 trilhões à dívida, de acordo com estimativas do Escritório de Orçamento do Congresso (CBO), órgão contábil apartidário do Legislativo americano.

O porta-voz da Casa Branca, Kush Desai, defendeu a gestão Trump, afirmando que o presidente foi o 'primeiro presidente a combater seriamente o desperdício, a fraude e os abusos generalizados em todo o governo federal'. Segundo Desai, Trump reduziu gastos ao demitir milhares de funcionários federais e eliminar 'programas que geravam desperdício'.

Trump e os republicanos no Congresso conseguiram, de fato, reduzir o déficit anual em 2025, mas em um montante marginal — o que não impediu que a dívida total do país continuasse crescendo.

Responsabilidade histórica dividida entre os dois partidos

A reportagem destaca que tanto republicanos quanto democratas compartilham responsabilidade pelo atual quadro fiscal americano. Os cortes de impostos promovidos pelos presidentes republicanos Ronald Reagan e George W. Bush ampliaram os déficits do país, assim como as guerras conduzidas durante o governo Bush.

Já os democratas Barack Obama e Joe Biden aumentaram os gastos públicos por meio de pacotes de estímulo econômico — no caso de Obama, em resposta à crise financeira de 2008, e no caso de Biden, em razão da pandemia de Covid-19. Uma exceção histórica foi o democrata Bill Clinton, que registrou superávits anuais modestos em seu segundo mandato, em um período de forte crescimento econômico e de reformas nos programas de assistência social, viabilizadas por uma legislação de compromisso com um Congresso então controlado pelos republicanos.

Mudanças demográficas pressionam ainda mais o orçamento

Além das decisões políticas, mudanças demográficas também têm sobrecarregado as contas públicas dos EUA. Com o envelhecimento da geração 'baby boom' — nascida nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial — e sua aposentadoria em massa, os fundos fiduciários que sustentam a Previdência Social e o Medicare (sistema de saúde para idosos) estão se esgotando, já que a receita dos impostos sobre a folha de pagamento não é suficiente para cobrir os benefícios futuros.

Gerações anteriores de políticos republicanos costumavam defender reformas nos programas de assistência social, mas Trump conduziu seu partido em direção oposta à ortodoxia conservadora tradicional, criando novos programas de rede de segurança, como contas de investimento apoiadas pelo governo destinadas a recém-nascidos.

Estrutura de receitas do governo americano é alterada

O governo Trump também modificou a estrutura de receitas dos Estados Unidos, em parte por meio do aumento de tarifas de importação e da redução das alíquotas do imposto sobre pessoas jurídicas. Essa mudança direcionou a arrecadação ainda mais para a tributação de trabalhadores e famílias, afastando-a das empresas e dos investidores.

Como consequência, a receita do governo americano tornou-se mais dependente de um tipo de tributação que representa uma parcela cada vez menor da produção econômica do país, em um contexto de mudanças financeiras globais e de uma força de trabalho que se aposenta rapidamente. De acordo com autoridades orçamentárias do Congresso, essa reconfiguração tem inclinado a carga tributária cada vez mais para as famílias de baixa e média renda, em detrimento daquelas com renda mais alta.

"Agora vemos os republicanos se tornando muito adeptos de formas alternativas de arrecadar mais impostos para evitar reformas politicamente difíceis nos programas de benefícios sociais", disse Romina Boccia, diretora de política orçamentária e de benefícios sociais do conservador Instituto Cato.

Trump aposta no crescimento econômico como solução

Os conservadores há muito tempo defendem a tese de que alíquotas tributárias mais baixas e menor supervisão governamental estimulam o investimento e o crescimento econômico, o que geraria mais receita tributária, aliviaria o custo dos programas de combate à pobreza e superaria o aumento da dívida pública. Essa é a mesma estratégia reiterada por Trump para justificar sua política fiscal.

"O crescimento vai resolver isso com muita facilidade", disse Trump em 21 de agosto, a caminho de um comício político.

Na segunda-feira seguinte, durante um pronunciamento no Salão Oval, Trump chegou a afirmar que suas políticas poderiam aumentar a produção econômica do país em 20% ao ano — um feito alcançado apenas uma vez desde 1947, quando a economia americana voltou a crescer com força no terceiro trimestre de 2020, logo após o fim das restrições impostas pela pandemia de Covid-19.

Fed sinaliza cautela diante do otimismo de Trump

O discurso otimista de Trump sobre o crescimento econômico contrastou com a mensagem transmitida pelo presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, Kevin Warsh, também na segunda-feira, durante a reunião dos ministros das Finanças do G20 realizada na Carolina do Sul. A declaração de Warsh, no entanto, foi interrompida no material disponível, sem detalhamento adicional sobre o teor de sua fala na ocasião.

O caso segue sendo acompanhado de perto por analistas econômicos e parlamentares americanos, uma vez que a trajetória da dívida pública e o custo de seu financiamento devem influenciar diretamente as eleições intermediárias de novembro e as futuras discussões orçamentárias no Congresso dos Estados Unidos.

Por: Redação Tá Sabendo MT (Redação Tá Sabendo MT, com informações de Notícias Agrícolas)

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