Economia

Iene se valoriza bruscamente e mercado especula sobre nova intervenção do Japão

Moeda japonesa avançou mais de 1% frente ao dólar em meio a sinais de possível consulta cambial das autoridades e expectativa de alta de juros pelo Banco do Japão

Iene se valoriza bruscamente e mercado especula sobre nova intervenção do Japão

Wikimedia Commons / Tokyoship (Source:Misogi)

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O iene se fortaleceu de forma acentuada frente ao dólar nesta quarta-feira (2), deixando operadores do mercado financeiro em estado de alerta para possíveis sinais de que as autoridades japonesas estariam adotando novas medidas para apoiar a moeda do país. A movimentação repentina reacendeu especulações sobre uma eventual intervenção cambial por parte de Tóquio.

A divisa japonesa chegou a avançar 1,2% durante a sessão de negociações em Nova York, atingindo a cotação de 158,22 ienes por dólar. O movimento levou participantes do mercado a monitorar possíveis contatos das autoridades japonesas com instituições bancárias para verificar cotações cambiais — um procedimento que costuma ser interpretado como precursor de uma intervenção direta no mercado de câmbio.

Ceticismo sobre intervenção direta

Howard Du, estrategista da TD Securities em Nova York, manifestou dúvidas sobre a origem do movimento. Segundo ele, a magnitude da valorização do iene nesta manhã foi menor do que a registrada em episódios anteriores de consultas cambiais promovidas pelas autoridades japonesas.

"E estou cético de que o movimento do iene nesta manhã tenha sido provocado por intervenção", disse Howard Du, estrategista da TD Securities.

Du destacou ainda que o iene já vinha ganhando força mais cedo na sessão, impulsionado por declarações de Hajime Takata, membro do conselho do Banco do Japão (BoJ) considerado um dos mais favoráveis ao aperto monetário. Takata deixou aberta a possibilidade de uma elevação mais agressiva dos juros, além da possibilidade de altas consecutivas nas taxas.

Repercussão no mercado global de câmbio

Os movimentos desta quarta-feira repercutiram em todo o mercado global de câmbio, que movimenta cerca de US$ 9,5 trilhões por dia. O Bloomberg Dollar Spot Index recuou 0,3%, registrando sua maior queda intradiária desde 21 de agosto, enquanto um índice de moedas de mercados emergentes atingiu as máximas da sessão. O iene também avançou mais de 1% frente ao euro no mesmo período.

Ainda assim, a valorização observada nesta quarta-feira foi menor do que aquela registrada quando Tóquio e Washington uniram esforços para apoiar a moeda japonesa em uma escala não vista havia décadas. A primeira operação coordenada de compra de ienes desde 1998 provocou uma recuperação de cerca de 5% a partir do nível mais fraco da moeda em aproximadamente 40 anos, quando a cotação chegou perto de 164 ienes por dólar. Na ocasião, os dois governos sinalizaram disposição para novas ações conjuntas, caso fosse necessário.

Consultas cambiais como ferramenta preparatória

A intervenção direta, porém, não é a única ferramenta disponível para apoiar a moeda japonesa. Em janeiro, o Federal Reserve Bank de Nova York contatou instituições financeiras para obter informações sobre a taxa de câmbio do iene. Na época, estrategistas de Wall Street e operadores interpretaram a movimentação como um possível passo preparatório para uma eventual intervenção do Japão.

O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos não respondeu de imediato a pedidos de comentário sobre uma eventual intervenção ou consultas cambiais realizadas nesta quarta-feira. O Federal Reserve de Nova York também não se manifestou a respeito.

"Ouvimos rumores de que isso seria intervenção, mas continuo cético pela dimensão do movimento", afirmou Andrew Hazlett, operador de câmbio da Monex.

Hazlett observou, no entanto, que os movimentos do iene frente ao dólar e ao euro não poderiam ser explicados de outra forma além de uma possível ação das autoridades.

Para Ben Ford, estrategista cambial da Macro Hive, a valorização relativamente pequena, mas rápida, se assemelha a uma possível consulta cambial, especialmente quando comparada às intervenções vistas nos últimos anos.

"Hoje pode representar uma mudança do Japão, deixando de sinalizar previamente as intervenções e passando a agir de maneira mais agressiva desde o início dos períodos de atuação", disse Ben Ford, estrategista da Macro Hive.

Gastos recordes e pressão sobre a moeda

O Japão gastou um valor recorde de US$ 96,4 bilhões no último mês para apoiar o iene, após a moeda atingir o menor nível em quatro décadas, segundo dados do Ministério das Finanças japonês. Autoridades do país têm repetidamente afirmado que o principal fator para decidir por uma intervenção não é um nível específico da taxa de câmbio, mas sim a velocidade e a desordem dos movimentos observados no mercado.

O iene tem sofrido pressão devido à ampla diferença entre os juros do Japão e os de outras grandes economias, além das preocupações com a situação fiscal do país diante dos ambiciosos planos de gastos da primeira-ministra Sanae Takaichi.

Ao mesmo tempo, fundos hedge voltam a ampliar posições apostando na queda da moeda japonesa, depois de terem reduzido essas apostas pessimistas logo após a intervenção coordenada entre Japão e Estados Unidos registrada anteriormente.

Diante da fraqueza do iene, o governo de Takaichi estaria apoiando uma elevação dos juros pelo Banco do Japão já na reunião de política monetária prevista para setembro.

Posição dos Estados Unidos

O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou esperar que o presidente do Banco do Japão, Kazuo Ueda, tome as decisões corretas em relação à política monetária do país, classificando os movimentos recentes do iene como relativamente contidos.

"Espero que Ueda faça a coisa certa", disse o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, sobre a política monetária japonesa.

Bessent também defendeu o apoio à moeda japonesa, argumentando que uma volatilidade excessiva do iene poderia acabar pressionando para cima os juros nos Estados Unidos.

Sinalização de alta de juros no Japão

Mais cedo, Takata reforçou a percepção dos investidores de que o Banco do Japão pode agir de maneira mais agressiva do que o esperado. Segundo ele, uma alta de 0,25 ponto percentual nos juros não está necessariamente definida, e aumentos consecutivos das taxas também são uma possibilidade considerada pela autoridade monetária.

Ueda já havia sinalizado anteriormente que uma elevação dos juros é provável quando o conselho do banco central se reunir ainda este mês, destacando os riscos de alta para a inflação japonesa. Os contratos de swap atrelados a juros já praticamente precificam uma alta de juros na reunião de setembro do BoJ.

Sensibilidade do mercado e dúvidas sobre sustentabilidade

Nathan Thooft, da Manulife Investment Management, avaliou que, independentemente de se tratar de uma intervenção de fato ou apenas de uma tentativa de influenciar o mercado por meio de consultas cambiais, a reação observada mostra como o posicionamento dos investidores se tornou sensível a sinais das autoridades japonesas.

"O mercado recebeu a mensagem de que as autoridades querem um iene mais forte. Mas, considerando os fundamentos, é difícil argumentar que esse movimento seja sustentável", disse Nathan Thooft, da Manulife Investment Management.

O episódio desta quarta-feira deve manter operadores e investidores globais atentos a novos sinais das autoridades japonesas nos próximos dias, especialmente diante da proximidade da reunião de política monetária do Banco do Japão marcada para setembro, quando o mercado já precifica uma possível alta de juros.

Por: Redação Tá Sabendo MT (Redação Tá Sabendo MT, com informações de InfoMoney)

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