Carro usado barato desaparece nos Estados Unidos com alta generalizada de preços
Consumidores americanos pagam cada vez mais por veículos seminovos com mais idade e quilometragem, reflexo de tarifas, juros altos e queda nos contratos de leasing
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A negociação recente de Benjamin Young em uma loja de carros usados na Flórida ilustra a severidade da crise de poder de compra que atinge os Estados Unidos: ele pagou US$ 30 mil, cerca de R$ 154 mil, por um Toyota 4Runner com os equipamentos que desejava, mas o SUV já havia rodado aproximadamente 145 mil quilômetros e tinha 12 anos de uso. Em 2023, o mesmo morador da região de Jacksonville havia comprado um Toyota Venza com quilometragem semelhante pela metade do valor.
"Definitivamente estou levando menos pelo meu dinheiro", afirmou Young, engenheiro de processos de 48 anos.
A experiência de Young reflete o que milhões de consumidores americanos enfrentam ao procurar veículos seminovos atualmente. Segundo o site de pesquisa automotiva Edmunds, um carro usado com preço entre US$ 10 mil e US$ 15 mil — de aproximadamente R$ 51 mil a R$ 77 mil — tem hoje, em média, quase nove anos de uso e cerca de 158 mil quilômetros rodados. Em 2019, o mesmo orçamento permitia comprar um veículo com menos de cinco anos e aproximadamente 93 mil quilômetros.
Preços recordes empurram todo o mercado
O aperto no mercado de usados começa nos veículos novos, vendidos por valores recordes que, mais tarde, chegam ao mercado de seminovos ainda muito valorizados. Um Toyota 4Runner novo custa hoje cerca do dobro do que Young pagou pelo seu usado, enquanto até um Honda Civic em versão básica parte de US$ 25 mil, o equivalente a aproximadamente R$ 129 mil. Para compradores com orçamento mais apertado, isso significa aceitar cada vez mais veículos mais velhos, com quilometragem elevada e maior propensão a precisar de reparos.
O fenômeno é apontado como mais um sinal de que o tradicional sonho americano de consumo está cada vez mais difícil de alcançar. Os eleitores reconduziram o presidente Donald Trump à Casa Branca, em parte, pela promessa de reduzir os preços ao consumidor. No entanto, a inflação voltou a superar 3% — patamar em que estava no momento em que Trump tomou posse — desde que o presidente entrou em confronto com o Irã no fim de fevereiro, o que provocou disparada nos preços de energia.
Na semana passada, as taxas de financiamento imobiliário nos Estados Unidos subiram ao maior nível em mais de um ano, e a confiança do consumidor ficou abaixo das estimativas de mercado em setembro. Pesquisas de opinião mostram os democratas à frente na disputa para retomar o controle da Câmara dos Representantes nas eleições legislativas de novembro, com boas chances também de conquistar o Senado, enquanto os índices de aprovação de Trump permanecem baixos. Nesta semana, o Federal Reserve elevou os juros básicos, e investidores já apostam em novas altas para conter a inflação — movimento que deve tornar o crédito ainda mais caro para os consumidores.
Fim da era dos contratos de leasing baratos
Nas duas décadas anteriores à pandemia de Covid-19, os carros novos eram mais acessíveis e um número maior de compradores recorria ao leasing. A competição entre as montadoras estimulava grandes descontos, contratos de leasing baratos e financiamentos com juro zero para impulsionar as vendas. Todos os anos, esses contratos abasteciam as lojas de usados com uma sequência constante de carros pouco rodados.
Os problemas nas cadeias de suprimentos durante a pandemia prejudicaram as vendas, mas ensinaram uma lição às fabricantes: produzir menos veículos e concentrar a oferta em modelos mais caros gera lucros maiores e agrada os investidores. Depois de anos com as ações praticamente estagnadas, General Motors e Ford Motor voltaram a atrair atenção do mercado financeiro, em parte graças à força dos lucros sustentados por preços mais altos — as duas companhias elevaram suas projeções de resultado para este ano.
No balanço do segundo trimestre, a GM destacou um preço médio de venda de US$ 52 mil por veículo, cerca de R$ 267 mil, e incentivos comerciais inferiores aos praticados pela maioria das concorrentes. A Ford apresentou resultado semelhante e afirmou que os preços líquidos ajudaram a elevar seu lucro trimestral em US$ 200 milhões, aproximadamente R$ 1,03 bilhão.
A GM começará a vender neste ano novas versões das picapes Chevrolet Silverado e GMC Sierra. Como os compradores tendem a pagar mais por modelos redesenhados, o diretor financeiro da GM, Paul Jacobson, afirmou a investidores em um evento do banco Morgan Stanley neste mês que isso "significa que existe potencial para elevar preços".
Tarifas e guerra elevam custos das montadoras
Embora o cenário possa soar como uma "inflação da ganância" — a preferência das empresas por margens elevadas em vez de buscar novos compradores —, parte do movimento decorre da necessidade, segundo Diane Swonk, economista-chefe da consultoria KPMG. As tarifas impostas pelo governo Trump custaram bilhões de dólares às montadoras, e a guerra com o Irã elevou os custos de energia, especialmente do diesel usado pelos caminhoneiros que transportam peças e veículos pela América do Norte.
O carro novo médio é vendido hoje por US$ 50 mil, cerca de R$ 257 mil. Como os automóveis perdem aproximadamente 40% do valor após três anos de uso, o veículo usado médio custa atualmente mais de US$ 30 mil, ou mais de R$ 154 mil. Em 2019, esse preço médio de venda era de cerca de US$ 20 mil, aproximadamente R$ 103 mil, de acordo com dados da Edmunds.
Esses preços inflados acabam se transferindo para o mercado de usados, que enfrenta ainda estoques menores em razão da queda nos contratos de leasing. Antes da pandemia, os americanos fechavam contratos de leasing para cerca de 4 milhões de veículos por ano, e a maioria deles era revendida como usada depois de três ou quatro anos de uso. Neste ano, o setor caminha para fechar apenas 2,5 milhões de contratos, o que pode restringir o mercado de usados por um longo período, segundo Ivan Drury, diretor de insights da Edmunds.
Segundo Drury, as montadoras deixaram de oferecer contratos de leasing com juros baixos como faziam no passado, porque os incentivos se tornaram caros demais no atual ambiente de juros elevados. Por isso, as empresas passaram a priorizar a venda direta dos veículos.
"Simplesmente não temos mais esse giro", afirmou Diane Swonk, economista-chefe da KPMG.
Concessionárias disputam veículos mais baratos
Carros usados vendidos por menos de US$ 20 mil, cerca de R$ 103 mil, estão cada vez mais difíceis de encontrar e costumam ter quilometragem elevada. As concessionárias precisam disputar intensamente esses veículos, segundo Rhett Ricart, proprietário de várias lojas em Columbus, no estado de Ohio.
"Eles são como ouro. Estão por aí, mas precisamos pagar preços recordes para consegui-los", afirmou Rhett Ricart, proprietário de concessionárias em Columbus, Ohio.
A disputa também é intensa entre os próprios consumidores. Amy Hyken, moradora do Kansas, passou meses navegando por sites de anúncios até encontrar um Lexus NX 250 usado, com menos de 80 mil quilômetros rodados, anunciado por US$ 35 mil, cerca de R$ 180 mil. O problema é que o carro estava na Flórida. Ela precisou gastar US$ 800, aproximadamente R$ 4,1 mil, e esperar mais dois meses para que o veículo fosse transportado até sua casa, perto de Kansas City. Como a entrega atrasou, Hyken conseguiu recuperar o valor pago pelo frete.
"É um mercado com menos opções do que no passado. Estou pagando mais, e encontrar o carro que quero ficou mais difícil", disse Amy Hyken, terapeuta familiar infantil de 58 anos.
Risco de reparos caros em carros mais rodados
Há ainda o risco de que veículos com quilometragem elevada precisem de reparos pouco tempo depois da compra. Embora afirme gostar de seu 4Runner, Benjamin Young relatou que o carro apresenta um vazamento de fluido que afeta os amortecedores. As oficinas estão cobrando milhares de dólares — o equivalente a dezenas de milhares de reais — para resolver o problema, e ele mantém uma discussão com a concessionária para tentar que ela assuma o custo do conserto.
"É assim que o mundo funciona agora", disse Benjamin Young, sobre a dificuldade de manter um carro usado sem gastos extras.
Por: Redação Tá Sabendo MT (Redação Tá Sabendo MT, com informações de InvestNews)