Venda de títulos públicos globais leva juros a máximas de vários anos, mas fica longe do colapso de 2022
Alta dos rendimentos nos EUA, Japão, Reino Unido e Alemanha preocupa investidores, mas magnitude do movimento é bem menor do que a registrada quatro anos atrás
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Uma onda de vendas atinge os mercados globais de títulos públicos, elevando os rendimentos a máximas de vários anos em economias como Estados Unidos, Japão, Reino Unido e Alemanha. Apesar do movimento, dados compilados pela Bloomberg mostram que a intensidade da alta atual é bem menor do que a registrada no fim de 2022, quando a disparada da inflação obrigou bancos centrais a promover uma sequência acelerada de aumentos de juros.
A diferença de magnitude entre os dois momentos
Segundo os dados da Bloomberg, nos últimos 20 dias os juros dos títulos públicos globais subiram, em média, 0,17 ponto percentual. No mesmo período de 2022, a alta havia sido de 0,62 ponto percentual — quase quatro vezes maior.
O reflexo também aparece nos preços dos papéis. Quando os juros sobem, os títulos já emitidos e em circulação no mercado perdem valor, já que pagam uma remuneração menor do que os novos papéis emitidos com juros mais altos. Neste ano, a queda de preço entre o ponto mais alto e o mais baixo dos títulos globais foi de 4,2%. Em 2022, esse recuo havia atingido 23%, uma diferença expressiva que ilustra a gravidade daquele episódio.
A onda de vendas de 2022 provocou o primeiro mercado de baixa em uma geração para os títulos públicos globais. O movimento foi impulsionado pelo Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, que liderou o ciclo de aperto monetário mais rápido e sincronizado em 50 anos entre os principais bancos centrais do mundo, em resposta a uma inflação turbinada pela retomada da demanda no pós-pandemia e agravada pela guerra na Ucrânia.
O que explica a pressão atual sobre os juros
Embora a inflação continue sendo um fator relevante nesta nova rodada de alta dos juros — impulsionada agora pela guerra no Irã e seus efeitos sobre os preços da energia —, outros elementos também contribuem para pressionar os rendimentos dos títulos para cima.
Os elevados gastos públicos em grandes economias como Japão, Reino Unido, França e Estados Unidos mantêm as emissões de dívida em níveis altos, o que leva os investidores a exigir uma remuneração maior para aceitar comprar e manter títulos de prazos mais longos. Paralelamente, o enorme volume de capital necessário para financiar o boom de investimentos em inteligência artificial intensifica a disputa por recursos financeiros, o que também contribui para elevar os custos de financiamento em geral.
Apesar dessas pressões, as perdas registradas pelos títulos neste ciclo foram mais contidas em comparação a 2022, em parte porque os rendimentos partem de um patamar muito mais alto do que naquela época. Isso oferece aos investidores uma proteção maior contra a queda dos preços, já que a renda gerada pelos próprios títulos ajuda a compensar eventuais perdas. Em contraste, no início de 2022 os rendimentos estavam próximos de mínimas históricas, o que deixava os investidores mais vulneráveis à reviravolta que se seguiu.
Um indicador dessa diferença é o cupom médio dos títulos que compõem o Bloomberg Global Treasury Total Return Index: neste ano, ele está em 2,68%, contra 1,84% em 2022.
O que dizem analistas e gestores de mercado
Mike Goosay, diretor de investimentos e chefe global de renda fixa da gestora Principal Asset Management, avalia que a volatilidade atual, embora incômoda, também traz benefícios para investidores de longo prazo.
"Embora a volatilidade atual possa parecer perturbadora, ela também melhora o conjunto de oportunidades de longo prazo nos mercados de renda fixa", afirmou Mike Goosay, acrescentando que a alta dos rendimentos "cria oportunidades que estiveram praticamente ausentes durante boa parte da última década".
Stephen Miller, consultor da gestora de investimentos GSFM, em Sydney, que acompanha os mercados de dívida desde 1983, defende cautela, mas reconhece o potencial dos títulos no cenário atual.
"Talvez seja melhor não se afobar", disse Stephen Miller. "Não posso dizer que os títulos sejam uma compra imperdível", completou o consultor, ressaltando que, "com rendimentos nesses níveis, eles passam a merecer alguma consideração por parte de um investidor voltado à geração de renda".
Já Kerry Craig, estrategista de mercados globais da JPMorgan Asset Management em Melbourne, argumenta que a percepção de risco embutida nos preços dos títulos pode estar exagerada em relação à real situação econômica de alguns países.
"A situação não é nem de longe tão ruim para todas as economias quanto o mercado de títulos faz parecer", afirmou Kerry Craig, citando o caso da Austrália como um mercado em que os investidores podem estar superestimando o quanto o banco central local ainda vai elevar os juros.
Dados econômicos recentes e o cenário à frente
Indicadores econômicos divulgados recentemente reforçam a avaliação de que o cenário pode não justificar tamanha pressão sobre os títulos. Nos Estados Unidos, dados relevantes decepcionaram as expectativas do mercado, com queda no nível de emprego em julho e recuo inesperado nas vendas no varejo. No Japão, a economia também cresceu menos do que o previsto no segundo trimestre do ano.
Apesar desses sinais, nenhum analista afirma com segurança que os rendimentos dos títulos já atingiram seu pico. A onda de vendas ainda pode se intensificar, já que a inflação impulsionada pelos preços da energia mantém vivas as expectativas de novas altas de juros por parte dos bancos centrais, enquanto as grandes emissões de dívida continuam pressionando os rendimentos para cima.
A elevação dos juros no Japão representa outra fonte potencial de instabilidade para o mercado global, pelo risco de atrair de volta ao país capital que hoje está aplicado no exterior em busca de melhores retornos — um movimento que poderia afetar a liquidez em outros mercados de dívida pelo mundo.
Os números mais recentes dos principais mercados
O rendimento dos Treasuries de 10 anos, título do governo dos Estados Unidos que serve como referência global para os custos de financiamento, avançou para 4,81% na quarta-feira, o maior nível desde o fim de 2023. O movimento aumentou a pressão também sobre a dívida de outros mercados desenvolvidos.
Na terça-feira, o rendimento do título público japonês de 10 anos chegou a 3%, patamar inédito neste século. Os rendimentos dos títulos europeus também dispararam na quarta-feira: a taxa do papel britânico de 10 anos subiu seis pontos-base, para 5,28%, o maior nível desde 2007, enquanto o título alemão equivalente avançou em proporção semelhante, para 3,39%, o patamar mais alto desde 2011.
Sinais de que o mercado está mais tranquilo do que em 2022
Apesar da alta generalizada dos juros, oscilações menores no comportamento do mercado indicam que os investidores encaram a atual onda de vendas com mais tranquilidade do que a crise anterior. A volatilidade dos rendimentos da dívida pública global caiu para 37 pontos-base, depois de ter atingido um pico de 56 pontos-base em maio.
Para comparação, essa mesma medida de volatilidade disparou em 2022 e chegou a cerca de 92 pontos-base em março do ano seguinte, evidenciando o tamanho da diferença entre os dois episódios.
Ayako Sera, estrategista sênior de mercado do Sumitomo Mitsui Trust Bank Ltd., em Tóquio, resume o momento como de pressão constante, mas sem um gatilho definitivo que force uma fuga generalizada de investidores.
"Os fatores negativos para os títulos vêm se acumulando de forma constante, mas até agora não surgiu nenhum catalisador decisivo forte o bastante para obrigar os investidores a sair do mercado", disse Ayako Sera.
O cenário mantém investidores e analistas atentos aos próximos indicadores econômicos e às decisões dos principais bancos centrais, especialmente Federal Reserve e Banco do Japão, cujas políticas monetárias devem continuar influenciando diretamente o comportamento dos rendimentos de títulos públicos em todo o mundo nos próximos meses.
Por: Redação Tá Sabendo MT (Redação Tá Sabendo MT, com informações de InvestNews)