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Petrobras cancela contratos com a Oceânica e provoca forte queda nos títulos de dívida da empresa

Rescisão de contratos de duas embarcações de inspeção submarina derruba papéis em dólar da companhia, que já enfrentava alavancagem crescente e resultados abaixo do esperado

Petrobras cancela contratos com a Oceânica e provoca forte queda nos títulos de dívida da empresa

Wikimedia Commons / Wilfredor

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A decisão da Petrobras de cancelar os contratos de duas embarcações operadas pela Oceânica, empresa brasileira especializada em serviços de inspeção e manutenção submarina, provocou forte queda nos títulos de dívida da companhia na semana passada, em mais um episódio de instabilidade no já fragilizado mercado brasileiro de dívida corporativa.

A Petrobras é a principal cliente da Oceânica e respondeu por 95% da receita líquida da empresa no ano passado, o que ajuda a explicar a intensidade da reação do mercado ao anúncio dos cancelamentos. Desde que a Oceânica revelou a rescisão dos contratos, seus títulos em dólar com vencimento em 2031 caíram 12 centavos, acumulando perdas de 10,7% — o pior desempenho entre os títulos de dívida de mercados emergentes na última semana, segundo dados de mercado.

Os papéis afetados haviam sido emitidos há apenas três meses, em uma operação de refinanciamento destinada a alongar o perfil da dívida da companhia. Na ocasião, a Oceânica ampliou o volume da emissão de US$ 625 milhões para US$ 650 milhões. Atualmente, os títulos são negociados a 88 centavos de dólar, com rendimento de aproximadamente 14,9%, mesmo após uma recuperação parcial registrada depois da forte queda observada na sexta-feira.

Cancelamento de contratos e explicações da Petrobras

Segundo a Oceânica, em balanço divulgado em 13 de agosto, a Petrobras rescindiu os contratos de duas embarcações da empresa: a SUB XIII, cujo contrato foi encerrado em 19 de maio, e a SUB XVIII, cancelada em 31 de julho. A estatal justificou as rescisões com base em cláusulas contratuais relacionadas aos prazos de mobilização das embarcações.

Em nota, a Petrobras afirmou que a Oceânica mantém contrato de prestação de serviços de inspeção de cascos com a companhia. Segundo a estatal, nesse modelo de contrato, a definição e a estratégia de utilização das embarcações para a execução dos serviços são de responsabilidade da própria contratada, respeitados os requisitos contratuais e a necessidade de aceitação prévia dos recursos pela Petrobras. Por esse motivo, a empresa afirmou não ser possível indicar antecipadamente qual embarcação será empregada na execução dos serviços.

A Petrobras acrescentou que mantém relacionamento técnico e contratual com seus fornecedores sem distinção, conduzindo a execução de seus contratos conforme os instrumentos firmados e a legislação vigente.

Posição da Oceânica e expectativa de retomada dos contratos

O diretor financeiro da Oceânica, James Lynch, afirmou em entrevista que a empresa possui liquidez suficiente para enfrentar o momento e que espera que as duas embarcações voltem a operar para a Petrobras, realizando inspeções de casco em plataformas de produção. Segundo ele, uma das embarcações deve retomar as operações ainda no fim do terceiro trimestre, enquanto a outra deve voltar a operar no início do quarto trimestre.

Lynch disse ter recebido diversas ligações de investidores preocupados com uma possível ruptura na relação entre a Oceânica e a Petrobras, além de questionamentos sobre o risco de o problema se estender a outros contratos vigentes entre as duas empresas.

"Nossa relação com a Petrobras, do ponto de vista técnico, continua muito boa. Nada mudou nesse aspecto", afirmou James Lynch, diretor financeiro da Oceânica.

Reflexo no mercado de dívida corporativa brasileiro

O episódio se soma a uma sequência de fortes quedas registradas nos últimos meses no mercado brasileiro de dívida corporativa, envolvendo empresas como Braskem e Raízen, que surpreenderam investidores pela rapidez e intensidade das desvalorizações, dificultando a realização de novas emissões no mercado.

Antes do caso da Oceânica, investidores já haviam se desfeito dos títulos da Aegea depois que a empresa adiou a divulgação de suas demonstrações financeiras. O episódio se somou a outras quedas expressivas no mercado de dívida, envolvendo também Raízen, Ambipar e Braskem. As perdas acabaram afastando parte dos investidores dessa classe de ativos, mesmo que os casos tenham sido, em geral, interpretados como problemas específicos de cada empresa, sem relação direta entre si.

No centro da turbulência está uma questão recorrente entre os investidores: se as recentes quedas representam casos isolados ou se são sinais de que novos problemas podem surgir no setor de dívida corporativa brasileira.

"O mercado está extremamente sensível a qualquer surpresa de crédito no segmento de high yield brasileiro neste momento", disse Roger Horn, estrategista sênior de mercados emergentes da Mariva Capital Markets.
"A queda pode ter sido um pouco excessiva, mas não foi sem fundamento. Essas histórias são difíceis de acompanhar em tempo real e dependem muito da credibilidade da gestão e da execução operacional", disse Nicolas Giannone, analista da Balanz UK, que encerrou na semana passada sua recomendação de overweight para a Oceânica, mantida havia três meses.

Resultados financeiros pressionados

Para a Oceânica, os cancelamentos dos contratos se somam a resultados abaixo do esperado no segundo trimestre, período marcado por custos maiores e aumento da alavancagem da companhia, o que deixa pouca margem para novos erros ou contratempos.

De acordo com os dados divulgados pela empresa, o Ebitda ajustado caiu 23% no segundo trimestre deste ano em comparação com igual período do ano anterior. A margem Ebitda, por sua vez, recuou de 45% para 35% no intervalo. Já a relação entre dívida líquida e Ebitda ajustado subiu para 4,9 vezes, ante 3,8 vezes registradas no fim de 2025.

"O fluxo de caixa livre deve melhorar significativamente no segundo semestre. Mas, após a fraqueza inesperada no segundo trimestre, os investidores parecem adotar uma postura mais cautelosa, à espera de resultados concretos", disse Nicolas Giannone, da Balanz.
"Os investidores buscam mais informações sobre a situação, e alguns ainda não sabem o que fazer com o investimento. Os fundamentos sustentam uma visão positiva, mas tudo depende de a relação com a Petrobras se manter sem novos contratempos", disse Omar Zeolla, analista da Oppenheimer & Co.

O caso da Oceânica reforça o clima de cautela entre investidores em relação ao mercado brasileiro de dívida corporativa, especialmente no segmento de alto rendimento, à medida que o setor aguarda sinais mais claros sobre a evolução da relação entre a empresa e a Petrobras e sobre a recuperação dos indicadores financeiros da companhia nos próximos trimestres.

Por: Redação Tá Sabendo MT (Redação Tá Sabendo MT, com informações de InvestNews)

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